Sabrina Noivas - Just Say I Do

Noivo substituto. Se ao menos Anabelle fosse casada... sua estabanada mas amorosa famlia pararia de importun-la. E ningum mais diria "pobre Anabelle..." cada vez que 1 noiva entrasse na loja Wedding Bells, especializada em promover matrimnios. Mas certo dia entrou 1 noivo...Bem, no exatamente. Adam havia convencido a cidade inteira de que ele e Anabelle se casariam em breve. Mas Anabelle sabia que o homem que ela amava em segredo havia muito tempo jamais a desposaria realmente. Adam estava fazendo o papel de prncipe encantado apenas para salv-la de 1 grande enrascada. E agora era a prpria Anabelle quem pensava "pobre de mim...", enquanto, do fundo do corao, acalentava 1 sonho: o de que o sim de Adam algum dia fosse real!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1997
Gnero: Romance histrico contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida


A DELCIA FAVORITA DE ANABELLE:
DOCE DE LIMO EM TABLETES... UM QUITUTE
ADORVEL COMO SOBREMESA DO ALMOO,
ou PARA O LANCHE DA TARDE.
Ingredientes:
Uma xcara de ch de manteiga ou margarina
Duas xcaras de farinha
V2 xcara de acar refinado
VA de xcara de amndoas (opcional)
Misture todos os ingredientes com um garfo ou batedeira. Coloque a mistura num pirex ou forma untada (de mais ou menos 20cm x 28cm) e leve ao forno por vinte minutos, numa temperatura aproximada de 165 graus centgrados.
Recheio:
Quatro ovos
Duas xcaras de acar
Seis colheres de sopa de suco de limo
Uma ou duas colheres de sopa de raspas de casca
de limo
Seis colheres de sopa farinha Acar a gosto
Bata os ovos. Adicione o acar, o suco de limo e as raspas. Misture com a farinha. Coloque tudo sobre a massaja assada e torne a levar ao forno por mais vinte e cinco minutos. 'Polvilhe" com acar, quando j estiver frio e corte em tabletes. Para uma ocasio especial, enfeite as barras com cascas de limo ou outros confeitos, para que fiquem ainda mais bonitas.

CAPITULO I

Anabelle Simmons ergueu o rosto, assumiu Luma expresso solcita e sorriu.
"Tenho de permanecer exatamente assim, at o final da conversa", ordenou-se, mentalmente.
Se dores de cabea fossem dlares, ela estaria rica, pensou, com ironia.
Tinha acordado com uma enxaqueca terrvel, naquela manh. E, pelo visto, continuaria assim o dia todo.
Como proprietria da Loja Wedding Bells  Elegncia e Requinte para Selar Romances Duradouros, Anabelle sabia que dores de cabea faziam parte de seu trabalho.
E ali estava ela, com as tmporas latejantes, enquanto a sra. Celeste Costello contava-lhe as ideias incrveis que tivera na noite anterior, a respeito do casamento de sua filha, que deveria ocorrer no ms de maio.
	O que voc acha de... pombas?  a velha senhora indagou, a certa altura.
	Pombas?  Anabelle repetiu, piscando os olhos.  Ora, em minha opinio so aves muito graciosas.
	Que tal se soltssemos uma centena delas, no momento em que minha filha Maria e seu noivo, Gustav, se beijassem no altar? No seria uma forma simplesmente maravilhosa de selar o casamento?
Anabelle franziu a testa, em sinal de surpresa. Celeste Costello sorriu, com orgulho.
Oh. no me agradea por essa ideia fantstica, meu bem! Sei que sou uma pessoa criativa e, por vezes, genial.
E ento, o que me diz?  Antes que Anabelle respondesse, ela acrescentou:  Claro que voc aprova, no  mesmo? Nesse caso, trate de pr mos  obra. Providencie as cem pombas, est bem? Dinheiro no  problema.
Anabelle suspirou profundamente. Quantas vezes no ouvira a frase, dinheiro no  problema, nos ltimos dias! Celeste Costello a dizia a todo momento, sobretudo depois de alguma grande ideia.
Recostando-se na cadeira, diante da mesa de Anabelle, a velha senhora a olhava como se esperasse por um cumprimento, ou melhor: por um elogio.
Anabelle, por outro lado, tentava encontrar o melhor modo de rechaar a sugesto. J fazia mais de cinco anos que dirigia a loja Wedding Bells, famosa no apenas na cidade, mas em toda a regio. Amabilidade e eficincia eram sua marca registrada.
Anabelle dedicavauma ateno especial s noivas e s mes, que naturalmente desejavam promover um casamento inesquecvel para as filhas. Mas havia um detalhe importante, nisso tudo: movidas pelas melhores intenes do mundo, as mes por vezes acabavam atrapalhando, com suas ideias nada prticas e at lamentveis.
Cem pombas voando, assustadas, no interior da pequena catedral da cidade, por exemplo... seria prtico? Causaria o efeito desejado? Anabelle sabia que no. E sabia, tambm, que aquela no fora a primeira ideia magnfica de Celeste Costello, nem seria a ltima.
Em contraponto com as ideias mirabolantes da me, Maria Costello j dissera, vrias vezes, que tanto ela quanto o noivo s queriam uma cerimnia simples e bonita.
"Mas cem pombas voando nada teriam a ver com simplicidade... ou bom gosto", Anabelle pensou, enquanto a dor se expandia das tmporas para o topo da cabea. "Estou perdendo meu senso de humor", disse para si.
De fato, alguns meses atrs, os cavalos, helicpteros e pombas da sra. Celeste Costello a teriam divertido muito, em vez de aborrec-la.
Mas, no momento, Anabelle tinha motivos de sobra para sentir-se desgastada. E a sra. Celeste Costello no era seu nico problema.
Tomando flego, ela afirmou, cautelosa:
	De fato, a pomba  o smbolo da paz e do amor. Mas creio que no seria prtico incluir cem desses belos animais na cerimnia.
A expresso de orgulho desapareceu do rosto de Celeste Costello.
Por que diz isso, querida?
	Bem, estou me baseando na experincia que adquiri nos ltimos anos  Anabelle explicou, num tom delicado, mas firme.  Os planos para o casamento de sua filha j foram traados. Tal como a prpria Maria exigiu, a cerimnia ser singela e de bom gosto. Como temos menos de cinco semanas at l,  melhor fazermos de tudo para cumprir o planejado. Criar novas ideias, a esta altura dos acontecimentos, seria contraproducente, no acha, sra. Costello?
 Certo  Celeste assentiu, aps alguns momentos de reflexo, embora no parecesse muito convencida. De sbito, indagou:  E quanto ao seu casamento, Anabelle querida? Aposto que planejou algo especial, para a cerimnia...
Anabelle baixou os olhos por um instante. Havia mencionado seu casamento  sra. Celeste Costello, h cerca de quatro meses, quando realmente pensava em se casar.
Mas j fazia duas semanas que Steve Richardson rompera o noivado, sem outra explicao a no ser o fato de que precisava refletir melhor, antes de assumir um compromisso to srio... O tipo de desculpa inconsistente, que a magoara profundamente.
Estava justamente procurando um modo discreto de responder a pergunta, sem dar chance  Celeste Costello de prolongar o assunto, quando o antigo relgio que pendia da parede indicou dez horas da manh.
	Minha nossa!  Celeste exclamou, erguendo-se de um salto.  Tenho hora marcada no cabeleireiro.
	Nesse caso, conversaremos numa outra hora.  Anabelle levantou-se, aliviada.  Pea a sua filha para vir, tambm  acrescentou. Pois preferia mil vezes tratar com Maria Costello, do que com a me. Afinal, a moa era muito mais sensata e razovel.
	Maria anda muito atarefada, com os preparativos. Mas voltarei amanh, neste mesmo horrio. Voc estar livre?
	Sim  Anabelle respondeu, depois de consultar a agenda. Marcou o nome de Celeste Costello e fechou-a.  Ento, at amanh  disse, estendendo a mo.
	At.  A mulher interrompeu o gesto de cumpriment-la e levou a mo  testa.  Oh, j ia me esquecendo de algo importante.
	Sim?  Anabelle fitou-a com ar de desalento. Sua pacincia estava chegando ao fim e ao ltima coisa que desejava no mundo era ser grosseira com Celeste Costello.
 Do que se trata, senhora?
O som de uma porta se abrindo a interrompeu. Em seguida Lianne Simmons, uma adolescente de dezessete anos, irm de Anabelle, entrou na loja.
A Wedding Bells funcionava no andar trreo de um antigo casaro de estilo vitoriano, onde Anabelle e Lianne moravam desde que haviam nascido.
Desde a inaugurao da loja, h mais de cinco anos, ambas habitavam a parte superior do velho casaro, composta de uma sala, trs sutes, copa, cozinha e lavabo.
Trabalhar to perto de casa tinha suas vantagens, Anabelle pensou... Mas a privacidade no se encontrava entre elas.
Quantas vezes recomendara  irm que no entrasse na loja daquela maneira, sem sequer bater  porta. Mas Lianne jamais a atendera. Quando tinha algum assunto a tratar, interrompia-lhe o trabalho, sem sequer pedir licena.
 Muito bem...  Anabelle fitou a irm com uma expresso severa.  O que aconteceu?  E no se preocupou com a expresso dramtica da garota, que costumava fazer tempestade em copo de gua por qualquer motivo.
Ambas se pareciam bastante, exceto por dois detalhes: a cor dos olhos e o temperamento.
Eram altas, esguias e possuam uma elegncia natural. Tinham os cabelos loiros, naturalmente platinados. Anabelle usava-os abaixo dos ombros, em geral soltos, adornados com presilhas. J Lianne preferia-os bem curtos.
Os olhos de Anabelle eram azuis como safiras. Os de Lianne, castanhos como avels. Mas o formato do rosto ovalado os traos delicados, o sorriso franco e um tanto tmido, eram idnticos.
J o gnio de ambas diferia muito. Lianne herdara, dos pais falecidos, a veia artstica. Era uma pianista bastante talentosa, de carreira promissora.
J Anabelle, movida pela circunstncia trgica da morte dos pais, ocorrida h seis anos, tivera de amadurecer rapidamente, desenvolvendo uma viso prtica e sensata a respeito da vida. Essa fora a nica forma de sobreviver  tragdia. Mas o fato era que ela sempre tivera um carter mais prtico, ao contrrio de Lianne, que parecia trafegar nas nuvens, ou em outro planeta...
Por isso, Anabelle j nem se sobressaltava quando a irm fazia grandes dramas a respeito dos problemas mais simples da vida. Naquele exato momento, por exemplo, Lianne parecia prestes a ter um colapso, ao indagar:
	Voc viu isto?	
S ento Anabelle reparou no exemplar do Dirio de Collier Bay, que Lianne tinha nas mos.
	Maninha...  Anabelle forou um sorriso e olhou significativamente para a sra. Celeste Costello.  Voc no v que estou atendendo a uma cliente?
	Ol, sra. Costello  Lianne cumprimentou a mulher, num tom polido. Aproximando-se da mesa, ergueu o jornal  altura dos olhos de Anabelle.  Leu ou no leu, mana?
	Leu o qu?  Anabelle perguntou, impaciente, enquanto as tmporas latejavam-lhe com mais fora ainda, chegando a um limite insuportvel.
Observando o jornal com ar curioso, Celeste Costello perguntou, eufrica:
	Oh, trata-se da coluna de Effie Sand! Ser que ela escreveu alguma coisa sobre o casamento de Maria e Gustav?
Effie Sand era a colunista social da cidade. Ela costumava noticiar eventos e festas, de um modo que desagradava Anabelle profundamente.
Claro que Anabelle sabia que a funo dos colunistas sociais era essa, mas no gostava do tom de fofoca que Effie Sand usava. Tanto, que jamais lia a coluna, apesar de saber que muitos casamentos que promovia eram ali noticiados.
	No h nada sobre Maria  Lianne respondeu a Celeste Costello, num tom dramtico.  A coluna inteira fala apenas de... minha irm.
	De mim?  Anabelle reagiu, espantada.
	Exato  Lianne confirmou, fitando-a com um misto de mgoa e indignao.  E estou furiosa por ser a ltima a saber.
	Saber do qu?  Anabelle indagou, confusa.
	Disto.  Lianne jogou o jornal sobre a mesa.  Por que voc no me contou, mana?
Anabelle pressionou as tmporas com fora, antes de pedir:
	Por favor, pare com esse suspense e diga-me do que se trata.
Lianne franziu o cenho, ao perguntar:
	Ento voc no sabe?
	Se soubesse,- no perguntaria  Anabelle respondeu, impaciente.
	Ento voc no sabe...  Agora as palavras de Lianne j no eram uma pergunta, mas uma constatao.
	O que est acontecendo, queridas?  Celeste Costello olhava de uma para a outra.  O que Effie Sand escreveu, afinal?
	 o que veremos.  Num gesto decidido, Anabelle pegou o jornal e leu, em voz alta:  "Depois de um breve namoro e de um noivado que durou quase um ano, a proprietria da loja Wedding Bells, Anabelle Simmons, e o mais jovem vereador da cidade, Steve Richardson, romperam o compromisso..."
Deixando-se cair sobre a cadeira, Anabelle fechou os olhos por um instante, antes de prosseguir a leitura:
 "Se voc est curioso a esse respeito, prezado leitor, pergunte-me o que aconteceu, de verdade... eu lhe direi, em primeira mo: o final do romance foi como uma bomba explodindo em nossa adorvel cidade. Afinal, toda a populao de Colher Bay aguardava, ansiosa, pelo casamento mais incrvel do ano, j que a noiva era a proprietria da maior loja de promoo de cerimnias da regio! Sendo o noivo, um vereador de famlia brilhante e carreira promissora... o que deveramos esperar? Uma cerimnia inesquecvel, diga de um conto de fadas. Mas no fiquem to decepcionados, ros leitores. Talvez tenhamos um casamento maravilhoso, daqui a bem pouco tempo. Pois, se me permitem um segredo, devo contar-lhes que vi Steve Richardson num restaurante muito chique, jantando  luz de velas como uma moa adorvel, filha de uma das famlias mais respeitveis da regio..'. Os dois pareciam envoltos numa aura romntica, esquecidos do mundo ao redor. Eu diria at que ela, de quem no revelarei o nome por enquanto, possui mais afinidade com Steve Richardson do que Anabelle Simmons. No sei... algo no modo como se olham, como se portam, me diz que o romance  srio. A moa , definitivamente, uma lady. Portanto, queridos leitores, podem ir preparando seus trajes de gala, pois talvez tenhamos, realmente, um grande casamento nesta cidade. Mas no esperem que a doce Anabelle Simmons se encarregue de promover a cerimnia! Alis, tenho a ntida impresso de que a loja Wedding Bells estar fechada para os noivos..."
Com um gesto trmulo, Anabelle deixou o jornal cair sobre o tampo da mesa.
	Pensei que voc j tivesse lido  disse Lianne, aps um longo momento.
	Como Effie Sand teve coragem de escrever essas fofocas?
 Anabelle murmurou, como se falasse apenas consigo mesma.  Como pde fazer insinuaes to maldosas? E pensar que h pessoas que lem isto! E que se deleitam com...
	Oh, no ligue para ela, meu bem  Celeste Costello a interrompeu, num tom carinhoso.  E quanto ao Vaticano...
	Que Vaticano?  Anabelle indagou, num fio de voz.
	Refiro-me  miniatura do Vaticano, que eu pretendia colocar no alto do bolo de casamento de minha filha  Celeste esclareceu.  Esquea a ideia, sim? O papa j tem publicidade demais e no precisa de ns.
	Certo  Anabelle assentiu, com um profundo suspiro. JNaquele momento, seria capaz de concordar at com uma miniatura do Empire State, ou da Disneyworld, apenas para se ver livre de sua excntrica cliente.
Talvez seja melhor recorrermos  tradio, ou seja: ao casal de noivos no topo do bolo  disse Celeste Costello, preparando-se para sair.  Bem, eu j vou indo, meu bem. Seja corajosa, sim? Em breve voc se esquecer de Steve Richardson. Afinal, ele no a merece.  Voltando-se para Lian-ne, recomendou:  Cuide bem de sua irm, querida. Neste momento difcil, ela precisa de muito amor e dedicao.
Lianne assentiu com um gesto de cabea e acompanhou Celeste at a porta. Em seguida voltou para perto de Anabelle que, recostada na cadeira, era a prpria imagem do desalento.
 Oh, por favor, no fique assim, maninha!  Lianne a interrompeu, abraando-a carinhosamente.
S ento Anabelle lembrou-se de que no estava sozinha. Teria de analisar a situao depois, talvez no final daquele dia, quando se recolhesse para dormir. No momento, era preciso dar explicaes a Lianne, que a fitava com um misto de pena e remorso.
	Eu realmente no queria causar-lhe esse choque, Anabelle  dizia, com voz trmula, enquanto acariciava-lhe os cabelos.  Se soubesse que voc ainda no tinha lido o jornal...
	Voc no me causou choque algum.  Anabelle levantou-se, desvencilhando-se do abrao da irm com um gesto delicado, mas firme.  Se algum me ofendeu, foi Steve.  difcil aceitar que ele tenha rompido o romance comigo e, duas semanas depois, j esteja cortejando outra mulher. Isso di bastante... aqui. Apontou para o corao, enquanto caminhava at a ampla janela que dava viso para a rua arborizada. Aspirou com fora o ar perfumado que vinha das rvores, procurando se acalmar.
Era uma bela manh de primavera e os pssaros faziam uma alegre algazarra, nos galhos mais altos. Era como se saudassem o dia, de cu azul e lmpido.
	Perdoe-me, maninha  Lianne pediu, num tom de splica.
	No tenho nada a desculpar de voc, querida.  Anabelle voltou-se e forou um sorriso. Em seguida explicou:
 Talvez eu devesse ter lhe contado antes, sobre o rompimento com Steve. Mas voc sabe como sou reservada nessas
questes.
__ Acabei sabendo da pior maneira.  Com um gesto de desalento, Lianne indicou o jornal sobre a mesa.  Voc no confia em mim, maninha?
	Claro que sim, ora!  Anabelle afirmou, surpresa.  Que pergunta mais boba!
	Ento, por que no desabafou comigo? Eu poderia t-la consolado naquele momento desesperador em que o mundo parece fugir sob nossos ps.
	No exagere  Anabelle repreendeu-a, com um sorriso triste. E explicou:  Lgico que fiquei abalada com o final do romance com Steve. Mas, para ser franca, nunca fui to apaixonada por ele como voc parece pensar.
	No?  Lianne indagou, espantada.
Anabelle respondeu com um gesto afirmativo de cabea, antes de dizer:
	Steve representava o que sempre busquei: segurana, estabilidade emocional, garantia de um futuro seguro, no
sob o ponto de vista financeiro, mas afetivo. Claro que eu tinha muito carinho, respeito e considerao por ele. Alis, ainda tenho, apesar de tudo.
	Mas voc no ficava sem flego quando o via? No sentia o corao disparar, nem o mundo girar loucamente, quando ele a beijava? No acreditava que era ele fosse a alma-gmea que voc sempre buscou?
	No, minha querida  Anabelle respondeu, paciente, como se falasse com uma criana.  Steve nunca me despertou sentimentos romnticos ou arrebatadores. Creio que eu tambm jamais o fiz sentir-se assim. ramos uma espcie de esteio, um para o outro, um apoio constante e incondicional, entende?
	No.
	Ora, deixe estar. Acho que Steve encontrou um apoio maior, em sua jovem namorada. E apesar de estar muito magoada com ele, no lhe desejo mal.
Voc fala de Steve como se ele fosse um amigo, no um ex-noivo.
Eu diria que ramos cmplices. Esta  a palavra exata para nos definir. Tnhamos uma viso bastante semelhante a respeito da vida. Queramos a mesma segurana, a mesma garantia sobre o futuro... Enfim, acho que poderamos nos completar.
	Que horror!  Lianne exclamou, chocada.  Isso no me parece nada romntico.
	Nem todas as boas coisas da vida so romnticas maninha  Anabelle contraps.  Existe o lado prtico sensato, comedido...
	Tudo isso me parece muito sem graa  Lianne interrompeu, com veemncia.  A vida no tem valor, sem um toque de aventura e romance.
	Voc concordar comigo, quando for mais velha.
Nunca!  Lianne retrucou, num tom dramtico.
Anabelle fechou os olhos por um momento. Tinha vinte e quatro anos de idade, e ainda que vivesse durante sculos a fio jamais se esqueceria dos nicos momentos romnticos que desfrutara, numa noite j longnqua.
A imagem de seu primeiro e nico amor estampou-se em sua mente, com uma nitidez espantosa. Mas tudo aquilo ficara para trs... Fora apenas uma loucura da juventude, essa idade em que todos nos julgamos eternos, donos do mundo.
	A verdadeira essncia da vida est no amor...  Lianne sentenciou, interrompendo-lhe as lembranas.  E tambm na aventura de vencer os prprios limites, para que assim possamos desfrutar o mundo com infinita intensidade.
	Concordo plenamente  disse uma voz grave e pausada, no momento em que a porta da loja se abria, para dar passagem a Adam Garret.
Arregalando os olhos azuis como safiras, Anabelle perguntou-se se no estaria sonhando. Como era possvel pensar em algum e, no momento seguinte, v-lo materializar-se, como num passe de mgica?

CAPITULO II

Adam Garret estava mais belo do que nunca. Esse foi o primeiro pensamento de Anabelle ao contemplar o homem que, parado  porta, fitava-a com intensidade.
Alto, dono de expressivos olhos verdes e cabelos castanhos, Adam usava uma cala caqui e camisa branca, cujos botes entreabertos revelavam parte da penugem morena do trax. O tom bronzeado da pele era o claro sinal do que Anabelle j sabia: Adam estivera envolvido em mais uma de suas aventuras, ou melhor, em mais um trabalho como fotgrafo submarino.
Por que paisagens andara, nos ltimos tempos, ela se perguntou. Em que lugares exticos estivera, em que profundos mares mergulhara, para fazer as fotos que tantas vezes haviam lhe valido prmios de revistas especializadas em ecologia?  Adam Garret!  Lianne exclamou, atirando-se nos braos do homem a quem amava como um irmo mais velho. Ele abraou-a calorosamente e tomou-lhe o rosto entre as mos.
	Deixe-me olh-la melhor... Voc est ainda mais bonita do que na ltima vez em que nos vimos.
Bondade sua, Adam.  Lianne sorria, radiante. No estou sendo bondoso, mas sincero. Voc est se transformando numa mocinha muito linda, sabia?
	Mocinha, no  ela o corrigiu e pronunciou com orgulho:  Mulher. Adam sorriu, com ar compreensivo.
	Todos os adolescentes tm pressa de se tornar adultos  comentou.  Por que ser?
	 Talvez porque as pessoas insistam em nos tratar corno crianas  Lianne retrucou.  J pensou nisso, Adam Garret?  E antes que ele respondesse, beijou-o em ambas as faces.  Bem, quando  que voc chegou?
	Ontem  noite  ele respondeu, acariciando os cabelos curtos de Lianne, a quem considerava como a irm caula que jamais tivera. ^ Senti saudade de voc, moleca.
	Mentira!  Lianne o repreendeu, num tom carinhoso.  Voc nem se lembra de ns, quando parte para suas aventuras.
Anabelle assistia  cena, entre comovida e melanclica.
Se pudesse tratar Adam Garret do mesmo modo que Lianne... seria to mais fcil! Mas por que pensar nisso, agora? Afinal, j fazia muito tempo que estivera prestes a entregar-se quele homem...
Anabelle meneou a cabea, ansiosa para afastar as lembranas incmodas.
Era sempre assim, quando Adam retornava de suas viagens, ela pensou, com um suspiro. Uma srie de emoes conflitantes a assaltava, deixando-a confusa e frgil ao mesmo tempo: alegria, ressentimento, curiosidade e... alvio! Pois, por mais que tentasse no pensar em Adam durante suas longas ausncias, rezava por ele todas as noites.
 Al, Anabelle.  A voz grave e pausada de Adam interrompeu-lhe as divagaes.  Como vai?
Com o corao acelerado, ela imprimiu um tom natural  voz, para dizer:
	Estou bem. Seja bem-vindo a Collier Bay.
	Obrigado  ele agradeceu, fitando-a com aqueles olhos verdes como jade, que pareciam adivinhar-lhe os mais secretos pensamentos.
	Por onde voc andou, desta vez?  Lianne perguntou.
	Nova Zelndia.
	Minha nossa! Voc foi um bocado longe. Espero que tenha me trazido um presente bem bonito.
	Lianne!  Anabelle repreendeu a irm.  Voc ja no tem mais idade para ser to infantil.
	Ora, o que eu disse de errado?
Em vez de responder  irm, Anabelle voltou-se para Adam:
	Ser que todos os adolescentes so assim? Fazem discursos idealistas e se sentem no direito de criticar o mundo inteiro. Mas, quando lhes interessa, do-se ao luxo de se portar como crianas mal-educadas.
	Ora  no seja to rgida.  Adam sorriu, exibindo dentes belos como prolas. Em seguida voltou-se para Lianne. ---Eu lhe trouxe um presente, sim. Alguma vez me esqueci de voc, em minhas viagens? Lianne sorriu de volta, curiosa:
	E o que ?
	Ah, isso eu no vou contar.
	E quando vai me dar o presente?
	Quando desfizer as malas. - Olhando de uma para a outra, ele indagou, divertido:  Ningum vai me convidar para sentar? Onde est a hospitalidade que sempre foi a marca registrada de nossa velha Collier Bay?
	Oh, claro  disse Anabelle, apontando um jogo de cadeiras antigas, estilo Lus XV, prximo a sua mesa de trabalho.  Fique  vontade.
	Obrigado.  Mancando do p direito, ele acomodou-se numa cadeira, com um profundo suspiro.  Eu estava mes mo precisando descansar um pouco.
	O que foi isso?  Anabelle indagou, olhando penalizada para o p enfaixado de Adam, calado num largo chinelo de couro.
	Voc o quebrou?  Lianne quis saber.  Foi algum acidente, ou algo assim?
	Oh, nada de muito grave. Apenas uma toro, da qual me recuperarei em breve.
	Quer dizer que est de frias foradas?  A pergunta de Anabelle soava como uma constatao.
	De certo modo, sim.
	E como voc se machucou?  Lianne indagou.  Estava tentando salvar um amigo em apuros? Ou talvez fugindo de algum tubaro feroz? Ou... 
O riso claro e cristalino de Adam a interrompeu.
	Sinto decepcion-la, mocinha.  Ele apontou o p machucado.  Mas isto no resultou de nenhum ato herico.
Ao contrrio: foi uma distrao.
	Como assim?  Anabelle indagou.
	Eu estava na proa do barco de Peter Broer, chefe de reportagem da revista Mares. Peter e seu assistente haviam mergulhado e eu aguardava que me chamassem, para fazer algumas fotos de uma baleia com seu filhote. Enquanto esperava, dormi. Rolei pela proa e acordei no momento em que caa. Tentei me segurar na borda do barco e consegui. Mas bati o tornozelo, ao subir a bordo novamente.
	Ah  Lianne assentiu, decepcionada.  Puxa, que jeito mais bobo de se machucar!
	Tem razo.  Adam suspirou.  O mais irnico  que eu costumava subir e descer do barco, justamente pela proa, dezenas de vezes por dia.
	Voc estava assustado  Anabelle comentou.  Por isso deve ter feito movimentos bruscos, desconexos...
	Exato  Lianne apartou.
	Bem...  ele sorria novamente, olhando de uma para a outra  como vem, sou um trabalhador ferido no cumprimento do dever.
	Oh, coitadinho!  Lianne gracejou.  E o que podemos fazer por voc, pobre Adam Garret?
	Preciso de companhia  ele resumiu, piscando-lhe um olho.  Que tal jantarem comigo, uma ou duas vezes por semana? Assim vocs me ajudaro a espairecer um pouco.
	Claro!  Lianne concordou, de imediato.
Anabelle tambm quis dizer sim, mas apenas mordeu o lbio inferior, em sinal de nervosismo. Em seguida afastou-se alguns passos, em direo a sua mesa de trabalho. Remexendo nos papis e pastas, fingia procurar algo... Mas no fundo s buscava um pouco de paz para seu corao inquieto.
A urgncia de dizer sim a Adam Garret no a surpreendia. Afinal, ceder s vontades dele era um hbito adquirido por Anabelle, de longa data... Um mau hbito, por sinal, do qual pretendia livrar-se o mais breve possvel.
Mas dizer no ao encanto daquele homem era uma tarefa difcil.
Adam Garret era capaz de cativar o mais insensvel dos seres humanos e Anabelle sabia disso muito bem, alis por experincia prpria.
Para ela, que desde cedo desenvolvera um senso prtico e rgido a respeito da vida, a impetuosidade e o esprito livre de Adam Garret eram to assustadores quanto fascinantes.
	Bem, quando  que vocs estaro livres?  Adam perguntou, interrompendo-lhe novamente as divagaes.
Lianne deu de ombros.
	No tenho compromissos,  noite. Portanto, vocs dois podem escolher.  Lianne ia dizer algo mais, quando a campainha da loja soou.   o carteiro  anunciou, olhando pela janela.  Vou atend-lo.  E saiu.
Assim que Lianne fechou a porta atrs de si, um silncio denso como uma cortina caiu entre Adam e Anabelle.
Por um longo momento, nenhum dos dois falou.
Ela continuava a remexer nervosamente nos papis espalhados sobre a mesa de trabalho. Ele a fitava com intensidade, mas permanecia calado. A tenso parecia quase palpvel, no ar.
Anabelle, com o corao aos saltos, no sabia o que dizer ou como agir. Numa tentativa de ocultar a ansiedade, sentou-se  mesa de trabalho e fingiu-se concentrada na leitura de alguns documentos. Mas, naturalmente, no conseguia ler sequer uma palavra.
Ao fim de alguns minutos, que a Adam pareceram uma angustiante eternidade, ele levantou-se e sentou-se na cadeira em frente  mesa de Anabelle.
	J faz um bom tempo que no nos vemos  comentou.
"Cinco meses", Anabelle respondeu, em pensamento. "Cinco meses e oito dias, para ser mais exata". Mas apenas disse:
	Desta vez, voc demorou bastante para voltar.
	 verdade.  Fitando-a no fundo dos olhos, ele acrescentou:  E suponho que tambm desta vez voc me rejeitar, como sempre faz.
	No fale assim  ela o repreendeu, num tom severo, embora no fundo admitisse que Adam tinha a razo.
	Na ltima vez em que estive aqui, voc me evitou durante trs semanas, antes de aceitar um convite para lanchar, justamente na vspera de minha partida para um novo trabalho.
	No fiz de propsito  ela mentiu.  Apenas, eu andava muito ocupada...
	Como sempre  ele completou.
	Exato.
	E agora? Est com muito trabalho?
	Sim  ela respondeu, baixando os olhos.
Adam assentiu com um gesto de cabea. De sbito, indagou:
	Sobre o que voc e Lianne estavam discutindo, agora h pouco?
	No devia ser nada de importante  Anabelle respondeu, esquiva.  J nem me lembro mais...
	Certo.  Casualmente, os olhos de Adam recaram sobre o Dirio de Collier Bay.
Isso no passou despercebido a Anabelle, que com um gesto tenso pegou o jornal e guardou-o numa gaveta.
	O que foi? - Adam indagou, surpreso.
	Como?
	Por que no quer que eu veja o Dirio?
	Ora...  Anabelle forou um sorriso. Mas no encontrou nenhum argumento que justificasse seu gesto.
	Voc parece nervosa  ele comentou, observando-a com ateno.  E bastante cansada, tambm.
	Impresso sua  ela desconversou. E para fugir ao olhar intrigado de Adam, comeou a abrir a correspondncia que recebera no dia anterior.  Puxa, eu j deveria ter dado uma olhada nessas cartas... Pode ter algo importante, alm dos folhetos de propaganda que costumo receber dos fornecedores.
Adam manteve-se calado. Recostado na cadeira, observava os movimentos de Anabelle, com um misto de apreenso e curiosidade.
"Olhos de falco", ela sentenciou, em pensamento. "Sempre foi assim, com Adam Garret... Sempre tive a impresso de que ele l meus pensamentos, que me devassa com uma fora contra a qual  impossvel resistir."
Essa constatao fez com que Anabelle estremecesse, sentindo-se ainda mais frgil. Mas uma onda de irritao a invadiu, em seguida.
Por que sentir-se assim diante de Adam Garret, afinal? Ela no lhe devia a menor satisfao. Pois Adam ia e voltava como a lua, as mars ou os ventos da primavera... com uma sutil diferena: a lua, o mar e os ventos cumpriam ciclos.
E seus movimentos eram previsveis, ao contrrio dos de Adam, que partia e retornava sem aviso prvio.
"Portanto, ele no pode exigir que ningum fique a sua espera, ou lhe preste satisfaes", Anabelle decidiu, em pensamento, enquanto um sorriso amargo estampava-se em seus lbios.
Mas para onde sua mente ou seu corao magoado a estavam levando, perguntou-se, de sbito. E compreendeu que era tolice irritar-se com Adam, por um nico motivo: ele jamais lhe pedira nada, ou fizera exigncias de qualquer espcie. Portanto, aquela sbita onda de indignao no tinha o menor fundamento.
Com um leve meneio de cabea, como se assim pudesse livrar-se daqueles pensamentos dolorosos, Anabelle continuou abrindo a correspondncia, separando os folhetos de propaganda e deixando-os de lado. De repente, um envelope com o timbre de uma grande financiadora chamou-lhe a ateno.
Abrindo-o, ela leu o contedo. Tratava-se de um aviso de cobrana, que deveria ser executado em pouco tempo.
Anabelle levou a mo  testa. Tinha se esquecido por completo daquela dvida. Mas como aquilo fora acontecer?
Com um suspiro, ela concluiu que sabia muito bem a resposta...
Steve Richardson... Podia-se dizer que esse era o nome do motivo que a fizera esquecer muitos compromissos importantes, nos ltimos dias.
Quando ele rompera o romance, h cerca de duas semanas, Anabelle sentira-se desnorteada. Seu plano de uma vida simples e organizada havia cado por terra. E, embora no amasse Steve com o ardor e arrebatamento de uma herona de romances, ela se sentira rejeitada, ferida em seu amor prprio.
Na semana seguinte ao rompimento, cancelara alguns compromissos e lutara muito para dar conta dos que estavam pendentes.
Com a carta da financiadora ainda nas mos, Anabelle suspirou desolada, momentaneamente esquecida da presena de Adam Garret.
Aquela no era a primeira vez que distraa-se com as contas... E, pensando bem, talvez Steve Richardson no fosse o nico responsvel por isso.
J fazia algum tempo que Anabelle vinha dando sinais de stress, devido ao intenso ritmo de trabalho que mantinha na loja. Esse ritmo jamais a deixara cansada, antes. Mas, no ltimo ano, Anabelle sentira-se particularmente desgastada.
J fazia mais de cinco anos que a Loja Wedding Bells existia. Anabelle a abrira pouco depois da morte dos pais. Logo de incio sentira-se gratificada com o pequeno negcio, que prosperara rapidamente. A estabilidade que ela sempre desejara ia se tornando realidade,  custa de muito trabalho e um pouco de sorte.
Mas cinco anos sem frias a haviam consumido, sem que Anabelle se desse conta. No ltimo ano, por exemplo, ela j no conseguira o rendimento de sempre. Por sugesto de Steve, fizera ummprstimo numa grande financiadora. E no se preocupara com o baixo valor das parcelas iniciais. Mas, com o passar dos meses, os juros tinham aumentado. E Anabelle, apesar de desdobrar-se para saldar as prestaes, ultimamente andava financeiramente no limite.
A to sonhada estabilidade, bem como o nvel de vida confortvel que ela enfim alcanara, aps muita luta, ameaavam escapar-lhe como areia entre os dedos.
Anabelle no contara sobre isso a ningum, nem mesmo a Lianne, para no preocup-la. E agora estava com um srio problema.
	O que h de errado?  A voz de Adam sobressaltou-a.
Erguendo os olhos, Anabelle fitou-o com ar distante, como se s ento se conscientizasse de que no estava sozinha.
	Qual  o problema?  ele insistiu.
	Oh, no existe problema algum  ela respondeu, forando um sorriso.
	Os negcios vo indo bem?
	Sim  ela mentiu, corando violentamente.
	Pois eu acho que...  Adam no teve tempo de completar a frase.
A entrada intempestiva de Lianne, que tinha as faces afogueadas de alegria, interrompeu a conversa.
	Eu consegui!  ela anunciou, agitando nas mos uma folha de papel. Na outra, segurava um envelope aberto.  Consegui, pessoal! Puxa, isso no  maravilhoso?  E rodopiava pela sala, feliz como uma criana que tivesse acabado de ganhar um brinquedo longamente desejado. Levantando-se, Anabelle aproximou-se da irm.
	Bem, o que foi que voc conseguiu, afinal?  perguntou, curiosa.
Em vez de responder, Lianne continuou rodopiando pela sala.
	Conte-nos, para que possamos compartilhar dessa alegria  Adam pediu.
	Isso mesmo, maninha.
Abrindo os braos, Lianne proclamou:
	Juilliard!
	O qu?  Adam e Anabelle perguntaram, ao mesmo tempo.
	Est aqui, com todas as letras! Ela sacudia a carta, como se exibisse um trofeu.  Eles me aceitaram e at j enviaram a ficha de matrcula. Isso no  incrvel, minha gente? No  a coisa mais maravilhosa do mundo?
Esquecido por um momento de seu p enfaixado, Adam ergueu-se com uma exclamao de alegria. Abraando Lianne, ergueu-a do cho, fazendo-a girar vrias vezes.
	Ei, pare com isso!  ela ordenou, rindo.  Voc est com o p machucado, lembra-se?
	Estou feliz por voc, garota!  ele respondeu, com um largo sorriso.  A Escola Juilliard de Bellas-Artes  uma das mais conceituadas do pas.
Anabelle sorria tambm, mas em seus olhos azuis pairava uma nuvem de preocupao. O fato de Lianne realizar o sonho de ingressar numa escola de Bellas-Artes, para aperfeioar seus estudos de piano, era maravilhoso... Mas custaria um bom dinheiro.
Anabelle levou a mo  testa, com uma expresso de angstia. Mais um deslize, pensou, angustiada. Como pudera esquecer-se de que Lianne enviara uma carta  Escola Juilliard, meses atrs? Aquela escola era o sonho de qualquer jovem artista, que l encontraria os melhores recursos para o aprimoramento de suas habilidades.
Anabelle sabia que a irm era uma pianista talentosa e merecia estudar com bons professores. Mas sabia, tambm, que a Escola Juilliard de Bellas-Artes ficava em Nova York, no outro lado do pas, e era frequentada por jovens de alto nvel financeiro.
Durante os prximos quatro anos, Lianne precisaria de uma boa soma, para manter-se na escola. Uma quantia que cobrisse suas despesas pessoais, gastos com o material e, o que seria ainda mais pesado: o pagamento das mensalidades.
 Oh, Deus  Anabelle murmurou, fechando os olhos por um instante.
No tinha a menor ideia de como pagaria suas dvidas, no momento... Quanto mais de como financiaria a ida de Lianne para uma famosa escola de Bellas-Artes.
"Eu darei um jeito", ela se prometeu. Sua mente trabalhava rpido, procurando uma soluo para aquele impasse... Rpido demais, alis. Pois os pensamentos acorriam-lhe numa velocidade vertiginosa, deixando-a atordoada.
De sbito, uma sensao de leveza a invadiu, em meio quele verdadeiro caos mental... E Anabelle suspirou, aliviada. Mas o bem-estar durou apenas um instante. A sensao deixou de ser confortvel, para transformar-se numa espcie de vertigem.
O cho oscilou sob os ps de Anabelle, que recuando aL guns passos tentou apoiar-se no tampo da mesa... Em vo. De repente escutou um zumbido, que parecia ecoar-lhe no interior da cabea, enquanto as tmporas latejavam-lhe de maneira insuportvel.
	Anabelle...  disse Adam  o que est acontecendo?
	Voc parece plida, maninha  Lianne comentou.
Mas as vozes de ambos soavam distantes para Anabelle, que levando a mo ao peito, sentiu falta de ar.
O mundo ao redor comeou a girar. Estendendo o brao, que parecia muito pesado, como se no lhe pertencesse, Anabelle quis apoiar-se em Lianne, que se aproximava. Mas foi Adam quem a amparou, no momento em que ela perdeu os sentidos.
 Eu... acabarei conseguindo  Anabelle ainda ouviu-se dizer, numa voz que no parecia sua.
Depois, tudo escureceu. O mundo deixou de existir. E ela caiu numa espcie de precipcio que parecia no ter fim.

CAPITULO III

Anabelle flutuava...
Estava em algum ponto entre o sono e a viglia. No sentia dor, nem desejo de coisa alguma. No sentia nada. At quando aquilo duraria?
Aos poucos, porm, tudo comeou a se tornar mais palpvel, mais... real.
Agora ela podia sentir o toque de dedos fortes massa-geando-lhe as mos, os braos, tocando-lhe o rosto e chamando-a docemente.
	Anabelle...
De quem seria aquela voz, que soava-lhe aos ouvidos como uma msica longnqua e harmoniosa?
	Anabelle, acorde, por favor...
A medida que ia recuperando os sentidos, ela conseguia raciocinar mais rpido. S havia uma pessoa no mundo capaz de cham-la daquele jeito, como se a acariciasse.
	Anabelle, querida...
Lentamente, ela abriu os olhos, deparando com os de Adam, que a fitavam com um misto de ansiedade e ternura. Por alguns instantes, Anabelle deixou-se ficar assim, como que hipnotizada por aqueles olhos cor de jade que jamais
esquecera.
	Ela est acordando  disse uma voz feminina.
Voltando levemente o rosto, Anabelle viu Lianne, que sorria aliviada.
	Ol, maninha. Seja bem-vinda ao planeta Terra. Que susto voc nos deu!
	Sente-se bem?  Adam perguntou, tomando-lhe as mos entre as suas.
	Sim  Anabelle respondeu, baixinho, com um profundo suspiro. S ento deu-se conta de que estava recostada em grandes almofadas, no sof de sua sala de estar. O vestido, modelo god, deixava  mostra uma boa parte de suas coxas. Num gesto de pudor, ela puxou-o para baixo.  O que estou... o que estamos fazendo aqui?  indagou, por fim.
	Voc sofreu um desmaio  Lianne respondeu, aproximando-se para afastar-lhe uma mecha de cabelos loiros do rosto.  Adam a trouxe para c.
Fechando os olhos por um instante, Anabelle imaginou Adam carregando-a desde a Loja Wedding Bells, que funcionava no andar trreo, at ali, ao primeiro pavimento do casaro, onde ela morava com Lianne. Uma sensao de constrangimento a invadiu, fazendo-a enrubescer.
	Eu lhe dei muito trabalho, no foi?  disse, num fio de voz.
	De modo algum  ele respondeu, com um sorriso.  E ento, como se sente?
	Estou bem... Apenas um pouco cansada.
	Eu queria chamar um mdico  Lianne interveio.  Mas Adam preferiu esperar que voc acordasse.
	Foi uma boa ideia.  Anabelle passou a mo pelo rosto e assumiu uma postura mais ereta, embora ainda se apoiasse nas almofadas.  Esqueam o mdico, sim?
	Mas...
	No  preciso, maninha. J disse que estou tima.
	tima?  Lianne repetiu, incrdula.  Voc est plida como um fantasma!
	No exagere. Preciso apenas de um pouco de descanso. Alm disso, no gosto de mdicos.
	Ningum gosta  Lianne retrucou.  Mas s vezes  necessrio consultar um.
	Bem, este no  o meu caso  Anabelle sentenciou, dando o assunto por encerrado.
Lianne voltou-se para Adam:
	Se teimosia matasse, eu teria perdido minha irm h muito tempo.
Ele riu e Lianne acrescentou:
	Por que no tenta convenc-la a receber um mdico?
	Porque tambm acho que no ser preciso  ele respondeu, calmamente. Agora, que tal preparar uma xcara de ch para sua irm? Isso a ajudar a reanimar-se. E traga-lhe algo para comer, tambm.
Lianne assumiu uma expresso de dvida.
	Voc acha que um simples lanche resolver o caso?
	Sim  Adam afirmou, com tanta convico, que Lianne acabou cedendo.
	Est bem, voltarei num instante.  Saiu, em direo  cozinha.
Adam fitou Anabelle, que agora sentava-se no sof, com os ps repousando sobre o carpete. Seus lbios comeavam a readquirir um pouco de cor, ele constatou, com grande alvio. Mas as olheiras que marcavam-lhe o rosto de traos delicados no deixavam dvidas: Anabelle estava estressada. O desmaio que sofrera fora apenas um sintoma do cansao e do desgaste que devia estar sofrendo h meses. Alis, no momento em que a vira, naquela manh, Adam percebera-lhe a fadiga e uma certa tristeza, que turvava-lhe os olhos azuis.
Uma onda de ternura o invadiu e por um instante ele sentiu o impulso de abraar Anabelle e implorar-lhe que a deixasse proteg-la de todos os males do mundo.
Esse sentimento era muito antigo, Adam recordou-se. Talvez existisse desde a adolescncia, quando Anabelle despertava-lhe um senso de proteo e de cuidados. Delicada e bonita, ela parecia uma herona de romances medievais,  espera de um cavaleiro que a tomasse sob sua guarda.
Em contraponto com aquela aparncia frgil, porm, Anabelle tornara-se uma pessoa forte e determinada. Era ela quem tomava conta de Lianne e de quem mais fosse preciso.
Desde menina ela se prestara a ajudar os pais no que fosse necessrio, portando-se com um senso de responsabilidade e seriedade impressionantes.
Um sorriso comovido insinuou-se nos lbios de Adam.
As imagens, to queridas, de Jackson e Allison Simmons, pais de Anabelle e Lianne, estamparam-se em sua mente.
Os dois, j falecidos, formavam o par mais romntico que Adam j conhecera. Pareciam eternos namorados. Viviam sempre rindo., sempre de bem com a vida, como eles mesmos costumavam dizer.
Mas eram artistas e, como tais, s vezes esqueciam-se do lado prtico das coisas. Deixavam que a imaginao voasse muito alto, que os sonhos os levassem para longe... E ento perdiam as noes bsicas do dia-a-dia, como por exemplo a data do vencimento das contas, ou a senha do carto do banco. Quando esses pequenos deslizes ocorriam, l estava Anabelle, pronta para resolver o impasse.
Sempre fora assim, desde que ele conhecera a famlia Simmons, que de imediato causara-lhe simpatia e admirao. Adam gostava do modo leve com que Jackson e Allison encaravam a vida, bem como da educao singular que davam s filhas. O dinheiro, os interesses, os bens materiais ficavam sempre no final de uma longa lista, onde os valores espirituais e morais ocupavam posies de destaque.
Adam sabia que tanto Anabelle como Lianne haviam aprendido aquelas preciosas lies. Mas sabia, tambm, que Anabelle de certo modo ressentia-se do estilo de vida da famlia. Seu carter prtico aflorara desde cedo, talvez para equilibrar a maneira de ser de Jackson e Allison, que alis costumavam citar um velho provrbio: para tudo o que  doce, um pouco de sal. Para tudo o que  salgado, um toque de acar. O equilbrio  a chave que abre todas as portas.
A prpria Anabelle colocara em prtica aquele sbio conselho: como seus pais eram excessivamente sonhadores, e Lianne seguia na mesma linha, ela ento pendia para o lado mais sensato, mais racional, para equilibrar a famlia.
J Adam sempre se sentira fascinado por Allison e Jackson, to diferentes de seus pais, Marjorie e Jeremy Garret, que eram por demais severos e prticos.
 Por que est me olhando assim?  A voz de Anabelle interrompeu-lhe as recordaes.
A princpio, Adam pensou em responder a verdade. Mas qualquer meno ao passado poderia ser dolorosa para Anabelle. Assim, ele preferiu desconversar:
	Sou eu quem faz as perguntas por aqui, milady  gracejou.  E a primeira : o que voc comeu hoje?
	Tomei um copo de iogurte e uma aspirina.
	Muito salutar  ele comentou, irnico.  Voc j  adulta o suficiente para saber que a alimentao  a base da sade.
	Iogurte  muito saudvel.
	Principalmente se acompanhado de frutas, queijo,
po... essas coisas que as pessoas costumam comer, pela manh  ele retrucou, num tom severo.
	Oh, nada de puxes de orelha, por favor. Sei que estou me alimentando mal, mas...  Ela no concluiu a frase.
Levando a mo  testa, suspirou profundamente.
Sentando-se a seu lado, Adam tomou-lhe o pulso. A proximidade com Anabelle deixava-o inquieto. De novo a urgncia de proteg-la o assaltava, de maneira irresistvel.
Com um profundo suspiro, Adam tentou sufocar aquele impulso. Precisava lembrar-se de que Anabelle tinha crescido, que j no era a mesma garota de antes. Alis, ela havia mudado de maneira radical. Prova disso era seu envolvimento com Steve Richardson. Anabelle, que sempre fora to exigente com relao a suas amizades, envolvera-se justamente com um homem arrogante, superficial e de carter duvidoso. A estava algo que ele jamais entenderia, Adam pensou, aborrecido.
A lembrana da notcia que havia lido no Dirio de Collier Bay, naquela manh, causou-lhe uma onda de indignao. De maneira maldosa e maliciosa, a colunista social informava os leitores de que Steve fora visto jantando a ss com uma garota, poucos dias depois de ter rompido o noivado
com Anabelle.
De fato, Adam o tinha visto no restaurante do aeroporto, na noite anterior, na companhia de uma jovem bastante atraente. Fora difcil conter o impulso de tomar satisfaes, de faz-lo lembrar-se de seu compromisso com Anabelle.
Felizmente, Adam conseguira conter-se, dizendo a si mesmo que a vida sentimental de Anabelle no era de sua conta. E, naquela manh, lera a notcia anunciando o final do romance.
	Est muito acelerado?  disse Anabelle, interrompendo-lhe os pensamentos.
	O qu?
	Perguntei se meu pulso est acelerado.
	Oh...  Tomando-lhe as mos entre as suas, ele friccionou-as.  No, sua pulsao est normal. Apenas, voc precisa se aquecer um pouco.
Ela assentiu com um gesto de cabea, enquanto Adam massageava-lhe as mos, causando-lhe uma avalanche de emoes contraditrias. Era bom, mas a um s tempo incmodo, estar to prxima de Adam Garret. Alegria, ansiedade, inquietao, embarao... todas essas sensaes a assaltavam numa velocidade vertiginosa, deixando-a confusa e frgil.
Enquanto isso, a lembrana de um tempo em que era to fcil ficar de mos dadas com Adam ia se insinuando em sua mente...
"O outono chegou, Anabelle", ele dizia. "O parque est forrado de folhas. Vamos dar uma volta?"
E, de mos dadas, ambos saam para passear e esqueciam-se do tempo.
"E primavera, Adam", ela anunciava, numa manh radiante. "Vamos ver a algazarra dos pssaros, l na praa?"
Ele a tomava pela mo e sorria, em sinal de concordncia.
Mesmo nos momentos mais difceis, Adam estendera-lhe a mo.
"Estou to nervosa com os exames finais, Adam... Tenho medo de no passar."
"Ora, mas  claro que voc vai conseguir. Se eu puder ajudar em alguma coisa..." E Adam ajudava, dando-lhe a mo e o apoio de que ela tanto necessitava.
Mas fora sobretudo nas horas de terrvel sofrimento, como na morte Jackson e Allison, que Adam estivera a seu lado, com as mos sempre prontas a oferecer o que ningum mais poderia: apoio, dedicao, carinho, respeito, pacincia... E no seriam esses os componentes do verdadeiro amor?
Mesmo agora, j totalmente recuperada do desmaio, e pensando nas contas que tinha a pagar, Anabelle sentia vontade de pedir a mo de Adam, de apoiar-se naquele ombro amigo e chorar at que a dor passasse, ou ao menos ficasse suportvel.
Apenas, as coisas entre ela e Adam haviam mudado.
Forada pelas circunstncias, Anabelle amadurecera muito rpido. E jamais se permitiria expor sua fragilidade, ou sua angstia.
	Ei aqui um ch de camomila, prontinho para ser saboreado  Lianne anunciou, entrando na sala com uma bandeja, que depositou sobre a mesinha de centro em frente ao sof.  Sirvam-se, crianas. Vou buscar os biscoitos e j volto.  Retornou em poucos instantes, com uma travessa de bolachas do tipo cream-cracker e um potinho de gelia de framboesa.
Adam j havia servido Anabelle e agora enchia sua prpria xcara.
	Est melhor, maninha?  Lianne perguntou.
	Sim, meu bem  Anabelle respondeu, depois de sorver um pequeno gole da bebida fumegante.  E o ch est
delicioso.
	 verdade  Adam secundou, depois de prov-lo. Em seguida voltou a sentar-se ao lado de Anabelle.  Est faltando a sua xcara, Lianne  disse, apontando a bandeja.
	Eu no quero.
	Mas voc adora ch de camomila  Anabelle surpreendeu-se.
	J tomei um gole, na cozinha.  Levando a mo  testa, Lianne exclamou:  Puxa, j ia me esquecendo...
Tenho de ligar para o meu professor de solfejo e avis-lo que no irei  aula, hoje.
	Por que no?  Anabelle perguntou.
	Porque minha adorvel maninha est doente e preciso cuidar dela  Lianne respondeu, num tom carinhoso.  Mas saiba que fao isso de corao.
	J disse que me sinto tima  Anabelle afirmou.
	Eu tomarei conta dela  Adam ofereceu.
Os dois falaram ao mesmo tempo e entreolharam-se, um tanto surpresos.
	Voc ficar com Anabelle, at que eu volte?  Lianne perguntou a Adam.
	Isso mesmo.
	Ei, vocs querem me ouvir, por favor?  Anabelle protestou.  No preciso de cuidados, pois no estou doente. Alis, pretendo voltar ao trabalho e...
	Negativo, maninha  Lianne a interrompeu.  J cancelei todos os seus compromissos de hoje.
	Por que fez isso?  Anabelle indagou, irritada.
	Por um motivo muito simples: voc precisa descansar.
	Mas...
	Nada de mas, srta. Anabelle Simmons  Lianne repreendeu-a, num tom carinhoso, porm firme. Voltando-se para Adam, recomendou:  Faa com que ela se alimente um pouco.
	Est prometido  ele assentiu, com um sorriso.
	Otimo.  Lianne saiu, com um aceno.
Com uma expresso ansiosa, Anabelle a viu partir. Naturalmente, Lianne achava que estava fazendo o melhor, deixando-a na companhia de Adam que, afinal, era como um irmo mais velho.
Apenas, para Anabelle, aquele homem significava muito mais do que um simples irmo...
Se pudesse relacionar-se com Adam tal como Lianne fazia, de maneira despreocupada e alegre!
"Se algum est destoando, aqui, esse algum sou eu", ela pensou, com o corao oprimido pela angstia. "Desejar o impossvel , no mnimo, falta de inteligncia."
Mas no era com sua inteligncia que Anabelle se preocupava e sim com os sentimentos. Pois eram estes que a faziam construir castelos de sonhos... sonhos que ela acalentara, quando adolescente. Alis, no fundo, continuava a mesma Anabelle Simmons de sempre: muito prtica, muito organizada e responsvel, mas secretamente romntica e sonhadora.
As pessoas mudavam em muitas coisas, exceto na essncia. No ntimo, num recanto especial de seu corao, Anabelle continuava amando Adam, mesmo sabendo que no havia esperanas de ser correspondida.
Numa noite, j longnqua, ele lhe abrira as portas do paraso, mostrando-lhe um mundo onde s as emoes contavam. Mas logo em seguida fechara-as para sempre, oferecendo sua amizade em lugar de seu amor. Uma amizade que Anabelle passara a rejeitar, por vezes de maneira ostensiva. Entretanto, ela s agira assim por um motivo muito simples: a certeza de que jamais se satisfaria com a amizade de Adam... que acabaria pedindo mais, implorando por algo que ele no lhe daria, j que no a amava.
Alm disso, a presena de Adam j no era constante, como antes. Ele ia e vinha sem aviso, e s vezes demorava muito para regressar de suas viagens. Anabelle jamais poderia aceitar aquele estilo de vida, que causava-lhe uma sensao de insegurana.
"Ainda que Adam me amasse, tal como eu o amo", ela pensava, "jamais nos entenderamos. Afinal, sua viso sobre a vida  to diferente da minha."
Pois Anabelle precisava da estabilidade de uma famlia, vivendo sempre no mesmo local, desempenhando os afazeres dirios num clima de respeito e carinho.
Adam, por sua vez, detestava a rotina e a vida pacata de Collier Bay. Queria surpresas, como ele mesmo costumava dizer. Queria a vida com gosto de aventura, e que cada dia fosse novo e diferente dos outros.
Com um profundo suspiro, Anabelle cortou a linha de pensamentos e concentrou-se no momento presente. J tinha problemas de sobra para resolver, no precisava de recordaes que s serviriam para deix-la ainda mais triste.
	Voc no est comendo nada  Adam comentou.  Faa um esforo, sim?
Anabelle aquiesceu com um gesto de cabea e mordiscou uma torrada. O desgaste das ltimas semanas roubara-lhe at a vontade de alimentar-se. Nem mesmo a gelia de framboesa, que era sua predileta, despertava-lhe o apetite.
	Chega  ela disse, depois de terminar a torrada e colocar a xcara sobre a mesinha de centro.
	No me diga que j vai parar...
	Estou satisfeita, obrigada.
Adam fitou-a com preocupao.
	Voc est tensa, Anabelle. E estressada, tambm. O que aconteceu, para deix-la assim?
	Oh, nada de mais  ela respondeu, rpido.  E que tenho trabalhado muito e...
	Sente-se cansada  ele completou.   isso?
	Sim.
Adam meneou a cabea, com um sorriso triste.
	Voc  uma pssima mentirosa, sabia?
Anabelle baixou os olhos. Quase nunca conseguia mentir para Adam, ou melhor: para ningum. Tinha o difcil costume de falar a verdade, de expressar sua opinio sem pensar nas consequncias. Isso j lhe causara srios problemas e alguns poucos elogios.
Ficaram em silncio por alguns instantes. Adam foi o primeiro a quebr-lo, num tom suave e gentil:
	Eu... soube a respeito de Steve Richardson.
Ento era isso, Anabelle pensou, aborrecida. Adam conhecia o motivo plo qual ela estava to deprimida.
"E no me surpreenderei se Adam disser que sabe, tambm, o quanto estou endividada", concluiu. "Afinal, ele parece ler meus mais secretos pensamentos."
Humilhada em sua auto-estima e amor-prprio, Anabelle sentiu-se tomada pela raiva. Quem era aquele homem, para atrever-se a falar de seus problemas? Ningum tinha o direito de intrometer-se em sua vida, sobretudo Adam, que quase nunca estava, quando ela necessitava.
Tomando flego, Anabelle tentou se controlar. No tinha por que irritar-se com Adam. Como sempre, ele estava apenas oferecendo sua amizade.
"E no posso culp-lo por no me amar", Anabelle pensou, com uma ponta de dor.
	Quer conversar sobre isso?  Adam indagou, com uma gentileza que s servia para exasper-la ainda mais.
	No, obrigada  ela agradeceu, num tom srio, ansiosa para mudar de assunto.
	As vezes faz bem falar sobre os problemas, sabe? Quando os traduzimos em palavras, vemos que eles no so to terrveis quanto parecem...
	Agradeo sua considerao, mas meus assuntos particulares no lhe dizem respeito.
	Como no, se eles a esto fazendo sofrer?
	Que lhe importa o meu sofrimento, Adam Garret?  Ela o encarou com um misto de raiva e mgoa.
Chocado, ele retrucou:
	Ora, voc  minha amiga, no? E eu detesto v-la sofrer.
	E mesmo?  ela reagiu, com amarga ironia.  Mas voc no estava aqui h duas semanas, quando Steve rompeu o noivado. Senti-me ferida, rejeitada, sem ningum para me consolar. Bem, no posso conden-lo por isso, mas tambm no sou obrigada a suportar seu discurso de bom amigo.
Uma expresso de mgoa estampou-se nos olhos verdes de Adam, antes que ele dissesse:
	Voc parece desprezar a amizade que lhe ofereo de corao. Por que faz isso, Anabelle?
	Porque para mim as coisas devem ser constantes e definitivas, entende? No compreendo uma amizade que 
e no  ao mesmo tempo.
	Como assim?  Ele a fitava com ar confuso.
	Ora, nossa amizade existe quando voc est aqui, descansando entre uma aventura e outra. Mas depois voc parte, deixando tudo para trs. E eu continuo em Collier Bay, dia aps dia, pensando em como suportarei sua ausncia, dali por diante...  interrompendo-se, Anabelle levou a mo aos lbios, consciente de que havia falado mais do que devia. Mas j era tarde para corrigir o erro.
	Ento voc sente a minha falta, Anabelle?  A pergunta de Adam soava como uma constatao. E ele sorria, feliz.  Sabe que cheguei a pensar que voc desprezava nossa amizade?
Anabelle no respondeu. Estava furiosa consigo, por ter se exposto a tal ponto.
	Puxa, isso que voc acaba de dizer  muito bom! ele afirmou, com um suspiro de alvio.
	E muito bom para quem, Adam Garret?  ela retrucou, rspida.
	Ora... para ns  ele respondeu, radiante.
	Voc no sabe o que est dizendo.  Ela meneou a cabea, com tristeza.
	Eu sei o que  sentir falta de algum, sim. Tenho saudade de voc o tempo todo, quando estou fora.
	Mas, para quem parte, at a saudade  diferente. A parte mais difcil cabe a quem fica.
	No  verdade.
	E, sim, Adam Garret.  A voz de Anabelle soava mais branda, agora.  Quem parte v lugares novos, conhece pessoas... A quem fica, resta o pedao mais amargo: o das recordaes.
	Anabelle...  Adam tomou-lhe a mo  voc nem imagina o bem que est me causando, com suas palavras. Sabe que j faz tempo que venho pensando que voc no gosta mais de mim? O modo como me tratou nas ltimas vezes em que estive aqui em Collier Bay, deixou-me muito triste, para dizer o mnimo.
Com os olhos fixos nos dele, Anabelle sentia o corao se abrir, como uma flor ao sol. Adam acariciava-lhe a mo, despertando-lhe sucessivas ondas de calor e prazer. Se pudesse, se lhe fosse dado comandar o destino, Anabelle prolongaria aquele momento especial por toda a eternidade.
	Ah, que bom sermos amigos de novo  disse Adam, com infinita ternura.
"Amigos", Anabelle repetiu, em pensamento, retirando rapidamente a mo.
	O que foi?  Adam indagou, surpreso.  Eu falei algo errado?
Com as faces coradas pelo embarao, Anabelle no conseguiu responder.
	Por favor, diga-me o que aconteceu.
Mas Anabelle estava triste demais para falar. Tinha a ntida impresso de que., se pronunciasse uma palavra apenas, comearia a chorar ali mesmo, diante de Adam. E essa demonstrao de fragilidade ela no queria cometer.
	Acho que sei por que voc est assim  Adam declarou, pesaroso, aps alguns momentos.
Anabelle suspirou profundamente. Adam sempre sabia de tudo, ela pensou, com amargura. Mas, naquele exato instante, no poderia jamais adivinhar o que lhe ia no corao.
	Acho que estraguei nossa amizade naquela noite...  ele afirmou, como se pensasse em voz alta.  Quase cometemos um erro irreversvel, mas felizmente paramos a tempo.
Anabelle sabia muito bem a que noite Adam se referia. Mas isso s serviu para deix-la ainda mais amargurada.
	J lhe pedi desculpas muitas vezes, por aquela noite 	ele disse, embaraado.  Por favor, tente esquecer o que aconteceu, sim?
	Esquecer!?  Anabelle quase gritou. Como poderia,
se os fatos daquela noite haviam sido os mais belos e, depois, os mais tristes de sua vida?
	Nossa amizade  muito mais forte do que tudo o que ocorreu... Ou melhor: quase ocorreu entre ns  Adam sentenciou, longe de supor o quanto suas palavras a magoavam.
	Nunca se esquea disso, Anabelle.
Ela mordeu o lbio inferior, num gesto de nervosismo. Imprimindo  voz o tom mais natural possvel, pediu:
	Por favor, ser que voc poderia me deixar sozinha, agora?
	Mas prometi a Lianne que...
	Eu sei.  Anabelle justificou-se, controlando a custo a vontade de chorar.   que eu gostaria de tomar um
banho e dormir um pouco.
	Est bem  Adam aquiesceu, tristemente.  Esta no  a primeira vez que voc me manda embora... Alis, isso tem acontecido com frequncia, nos ltimos anos. Voc sempre est ocupada demais, ou cansada demais, para me receber.
	Impresso sua  Anabelle mentiu.
	Ser?  ele argumentou, fitando-a com aqueles olhos cor de jade que pareciam desnud-la.
	, sim. Pode apostar nisso.
	Acho que j lhe disse que voc  uma pssima mentirosa, Anabelle Simmons.
Ela no respondeu. E Adam levantou-se.
	Eu j vou. D um beijo em Lianne por mim e diga-lhe que foi voc quem me dispensou, est bem?
Anabelle assentiu com um gesto de cabea e levantou-se, tambm.
	Eu o acompanharei at a porta  disse, tentando ignorar a sensao de tontura que a assaltou.
	No  preciso. Trate de tomar seu banho e descansar. Se precisar de mim, a qualquer hora,  s chamar.
	Obrigada  Anabelle agradeceu, sentando-se nova mente. Sentia-se fraca, sem energia e muito triste.
As lgrimas afloraram-lhe aos olhos, to logo Adam saiu. E, dessa vez, Anabelle no tentou cont-las. Precisava mesmo desabafar a dor que a sufocava... A dor de uma paixo que jamais seria correspondida.
Como era triste ter o ser amado to perto e ao mesmo tempo distante, como a mais longnqua constelao do cu.

CAPITULO IV

A tarde estava bela, com algumas nuvens, brancas como algodo, espalhadas no cu azul. Era primavera em Collier Bay, Adam pensou, com uma ponta de tristeza. E essa poderia ser uma estao romntica, ou melanclica... dependendo do estado de esprito de cada pessoa.
 Seja como for, este  o tipo de tarde que convida  contemplao e, sobretudo, a sair de casa  ele decidiu, em voz alta, caminhando em direo ao quintal dos fundos.
O sol refletia-se nas guas azuis da piscina, que tinha ao lado um deque de madeira, bem como vrias cadeiras laqueadas de branco.
Adam sorriu. Seu fiel caseiro, Geoffrey Masterson, havia cuidado de tudo, como sempre.
O velho Geoffrey trabalhara durante vrios anos para a famlia Garret.
Jeremy e Marjorie Garret, pais de Adam, tinham partido para o Arizona, depois de vender a Lavanderia Garret, de propriedade da famlia. Isso acontecera h dois anos. Na poca, ambos haviam convidado Geoffrey a acompanh-los. A princpio, ele aceitara a proposta. Mas ao saber que Adam pretendia manter a casa em Collier Bay, mudara de ideia e optara por ficar.
Adam confiava no caseiro como confiaria num irmo mais velho. Geoffrey conservava a casa, como se esta lhe pertencesse. Sempre que Adam escrevia, avisando de sua chegada, fazia uma grande compra no supermercado e supria a despensa. Recebia Adam com grande carinho e em seguida partia para gozar frias na casa de uma irm que morava em Dakota do Sul. Alis, Geoffrey tinha viajado naquela manh, bem cedo. E quela hora j devia estar chegando a Dakota, Adam pensou, sentando-se no deque, na posio de ltus, como os iogues costumavam fazer. Era uma postura confortvel, que convidava  meditao e a algumas lembranas.
Quantas vezes ele no nadara naquela piscina, quando menino e depois adolescente, numa poca em que eram necessrios muitos exerccios fsicos, para acalmar os hormnios e suas exigncias...
Sorvendo mais um gole de vinho, Adam lembrou-se dos tempos de escola, quando era o garoto mais bonito e popular da classe. Alvo de ateno de tantas meninas, sentia-se uma espcie de privilegiado. No saberia dizer quantas namoradinhas tivera, durante os anos em que mudar de sentimentos ou de ideias era to fcil como trocar de roupa.
Quando os pais saam, Adam costumava convidar sua namorada do momento, para nadar. E ento experimentava as primeiras sensaes de desejo, prazer, medo e fascnio que povoavam a mente de todos os adolescentes.
Por onde andariam suas ex'-namoradinhas, agora? E os colegas de escola? Que caminhos teriam seguido? Adam deixou que seu pensamento vagasse assim, fazendo cogitaes, imaginando a vida de cada amigo, cada garota que tocara-lhe o corao de maneira especial.
Mas nenhuma lembrana poderia se equiparar a de uma noite particularmente mgica, em que aquele deque se transformara num pedao de paraso, abrindo-lhe as portas de um mundo que at ento ele jamais imaginara existir. As comportas da lembrana se abriam, agora, trazendo as imagens de um passado que Adam jamais conseguiria esquecer...
Quanto tempo transcorrera, desde aquela noite? Cinco anos, talvez?
Bem, isso no importava, pois as emoes jamais obedeciam ao tempo dos relgios, dos dias e meses. Elas eram feitas de outra matria, que escapava  razo e aos nmeros. Um pssaro cantou no pomar, como se saudasse a tarde primaveril. Adam olhou para trs... no somente para o pssaro, mas para o passado, inesquecvel e marcante.
A imagem de uma Anabelle mais jovem e menos sofrida estampou-se em sua mente:
	Adam! Ei, Adam, cad voc?
A voz de Anabelle soara l embaixo, no jardim, num tom alegre e descontrado.
Adam, que estava sozinho em casa, resolvera recolher-se mais cedo naquela noite, a fim de ler um pouco. Levantando-se da cama, ele descera rapidamente ao andar trreo da casa.
	Sim, Anabelle, eu estou aqui!  dissera, saindo na sacada do quarto, que dava para o jardim da frente.  Por que tanta euforia?
Exibindo uma garrafa de champanhe, ela respondera:
	S contarei se voc vier brindar comigo.
	Brindar?  ele repetira, surpreso.  Ento, deve ter acontecido algo muito importante.
	Sim, e quero compartilh-lo com voc... Isto , se eu no estiver incomodando.
	Voc no incomoda nunca, Anabelle Simmons.  Adam sorrira, deliciado por v assim, to alegre. Sabia que Anabelle tinha trabalhado arduamente nos ltimos meses para montar a Loja Wedding Bells, que alis fora inaugurada h pouco tempo.
	E ento, o que me diz? Vai ficar a, me olhando, sem dizer nada?
	Oh, desculpe. Eu estava pensando...
	Em qu?
	Bobagens... Mas conte-me, Anabelle, o que aconteceu para deix-la assim, to contente?
	Pule para c  ela convidara, com um sorriso radiante.
 Ou ento me convide para entrar.
	Onde est Lianne?
	Aquela bobinha sempre dorme cedo... Este  o problema.
	Voc tambm no costuma recolher-se muito tarde, pelo que me consta.
	 verdade. Mas hoje  um dia especial. Estou to cheia de energia que no seria capaz de dormir, nem mesmo
se algum me acertasse na cabea.
Adam rira daquelas palavras simples e divertidas. Afastando-se da sacada, descera para o andar trreo e abrira a porta para Anabelle.
	Entre, srta. Simmons  convidara, fazendo uma reverncia, como os antigos cavaleiros.  Faa de conta que a casa  sua.
	Oh, eu farei!  Ela rodopiara pela sala, com os braos abertos, a garrafa de champanhe bem segura na mo direita.
De sbito, assumira uma expresso preocupada.  Nossa! Esqueci que seus pais j devem estar dormindo.
	Eles no esto aqui. Foram visitar meu tio, em sua casa de praia, e s devem voltar amanh.
	Ainda bem!  Anabelle exclamara, radiante.  Estou to feliz, que seria incapaz de falar baixo...  Mudando de expresso, acrescentara, num tom mais srio:  Mas antes preciso fazer-lhe uma pergunta.
	Todas as que voc quiser  Adam assentira, com um sorriso.
	Voc... est com esprito festivo, nesta noite?
Festivo era a ltima palavra que Adam escolheria, para definir o modo como se sentia, no apenas naquela noite, mas nos ltimos meses.
J fazia algum tempo que vinha enfrentando um grande conflito interior, que deveria culminar com uma deciso bastante difcil... Uma deciso que mudaria sua vida e que lhe custaria muito, ao menos a princpio. Mas para que pensar em si mesmo naquele momento?, ele se perguntara, afastando da mente as inquietaes e dvidas. Para que pensar em qualquer outra coisa ou pessoa seno em Anabelle, que estava simplesmente linda, cheia de vida, iluminando o ambiente com sua presena?! Haveria algo mais importante do que esse fato? Adam apostava que no... E por isso resolvera mentir:
	Estou com tima disposio.  Pegando a garrafa de champanhe das mos de Anabelle, indagara:  Cad taas? 
	Oh, esqueci-me de traz-las! Espere um momento, que irei busc-las e voltarei num instante.
	No  preciso. Usaremos as taas aqui de casa, mesmo.
	 Num tom de gracejo, ele comentara:  Elas no so to finas quanto as da Loja Wedding Bells, mas...
	Ora, no seja mentiroso.  Rindo, Anabelle o acompanhara at a copa, onde Adam pegara duas taas do armrio.
	Aonde vamos beber?  ele perguntara.
	L fora!  Anabelle respondera, depois de refletir por alguns instantes.  Est uma noite linda, com uma lua que parece um disco de prata.
	Ento, vamos para o deque  Adam sugerira.  Assim, poderemos contemplar a lua, enquanto voc me conta as novidades.
	De acordo!  Anabelle aprovara, correndo em direo  porta dos fundos. Seu vestido azul de vero, de tecido leve e saia esvoaante, dava-lhe um toque de leveza sem igual.
Adam a observara, tomado por um forte sentimento de ternura... E tratara de alcan-la, levando a garrafa e as taas.
	Deixe isso comigo  oferecera, pegando a garrafa das mos de Anabelle, que aplaudira quando a tampa saltara com um estouro. Enchendo ambas as taas, ele perguntara:
 Bem, a que vamos brindar?
	Ao meu primeiro contrato  Anabelle respondera, radiante, fazendo sua taa tilintar contra a dele.  Trata-se
de uma cerimnia de casamento, na matriz da cidade, com a decorao por minha conta, mais uma recepo para trezentas pessoas, na manso dos pais da noiva!
	Esta notcia requer realmente uma grande comemorao!  Adam exclamara, com um largo sorriso. Erguendo a taa, fizera um segundo brinde:  Ao seu sucesso, Anabelle. Voc o merece, mais do que qualquer outra pessoa no mundo.
	Ora, no exagere.
	Estou apenas expressando minha mais sincera opinio.
De fato, era exatamente assim que Adam pensava. Sabia o quanto Anabelle trabalhara, para inaugurar a Wedding Bells. Admirava-a profundamente por isso... e por muito mais.
Com a morte dos pais, Anabelle abandonara o sonho de cursar a Faculdade de Letras, para cuidar da irm.
Allison e Jackson haviam deixado algumas economias, no Banco. Anabelle as aplicara na implantao da Wedding
Bells e no sustento da casa, durante os primeiros meses aps a tragdia. Felizmente a loja tinha tudo para conseguir uma boa clientela, em bem pouco tempo.
Num tom de alegria crescente, Anabelle falava sobre aquele primeiro contrato: a conversa com os pais da noiva, o nervosismo que a acometera a princpio, a satisfao de ser escolhida para promover a festa, que deveria ocorrer dali a um ms.
Adam a ouvia, deliciado. Mas no era bem nas palavras de Anabelle que se concentrava e sim na maneira dela gesticular, no jeito de olhar, de sorrir, de afastar ocasionalmente uma mecha loira do rosto.
Tomado por uma forte emoo, ele constatava o quanto Anabelle era bonita e atraente. Incrvel como no notara isso antes, j que convivia com ela h muito tempo.
A questo era que, at aquele momento, considerara tanto Anabelle quanto Lianne como irms... nada alm disso.
Bem, Lianne ainda era e sempre continuaria a ser sua irmzinha caula. Mas quanto a Anabelle... como se chamaria, exatamente, o sentimento que ela lhe despertava, naquele momento especial? Fascnio... Atrao... Paixo?
	A noite est maravilhosa  ela comentara, a certa altura, depois de sorver mais um gole de champanhe.
	Maravilhosa est voc, Anabelle Simmons. Sabe que voc  a mulher mais bela e interessante que j conheci?
E que s hoje estou me dando conta disso?
Adam no pretendia traduzir seu pensamento em palavras, mas fora exatamente isso que fizera. Anabelle ficara a princpio surpresa, depois sorrira e por fim baixara os olhos, embaraada.
Por um longo momento, ambos ficaram em silncio, ouvindo os sons noturnos: a sinfonia dos grilos, o pio solitrio de um pssaro, o sussurro da brisa de vero entre as folhagens, o eterno cntico das ondas do mar, to prximo, embora no pudessem v-lo, dali do deque.
Apesar de tanta calma e beleza, havia um tenso quase palpvel, no ar. Adam sentia-se percorrido por uma espcie de corrente eltrica, que fazia seu corao bater acelerado, a ponto de provocar-lhe falta de ar. Seu corpo jovem despertava para a mulher a seu lado... A mulher que at poucos instantes atrs fora como uma irm. E que agora transformava-se no objeto de seu amor. Como explicar aquilo, ele se perguntava, confuso. Talvez a noite enluarada, que convidava ao romance, fosse a culpada por tantas emoes. Ou ento a magia da lua, cmplice do mar e das rvores ao redor, era a grande responsvel por tudo...
Voltando-se para Anabelle, que parecia mais linda do que nunca sob a intensa claridade do luar, Adam a fitara com intensidade, sem saber o que falar. Mas se faltavam-lhe as palavras, sobravam-lhe sentimentos e emoo.
	Voc tem sido um bom amigo  ela dissera, por fim, num tom tmido. ; Um amigo dos melhores.
	Gostaria de ter podido ajud-la, na loja. Mas tive de auxiliar meu pai na lavanderia e...
	Eu sei  ela o interrompera, docemente.  Ns dois trabalhamos muito, nos ltimos tempos. E quase no tivemos oportunidade de conversar, como fazamos antes.
Adam recebera aquelas palavras com uma ponta de remorso. Em parte, ele fora responsvel por aquela distncia. Pois passara os ltimos meses gastando as poucas horas de folga de que dispunha, para ler revistas especializadas em ecologia, preservao do meio ambiente, trekking e outros assuntos relativos. Em segredo, acalentava o sonho de partir para longe de Colher Bay, a fim de fazer as duas coisas que mais amava: ficar em profundo contato com a natureza e trabalhar como fotgrafo profissional. Um ms atrs, surgira-lhe a possibilidade de realizar esse sonho. E ele queria que Anabelle fosse a primeira a saber...
J ia dar-lhe a notcia, quando ela fizera uma pergunta surpreendente:
	Voc arranjou uma namorada? E por isso que no o tenho visto mais?
	No estou namorando ningum, no momento  ele esclarecera, um tanto surpreso.  E se no nos vimos ultimamente,  porque temos trabalhado muito, investindo em nosso futuro.
Tomando flego, ele decidira revelar seu segredo. Mas no tivera tempo, pois Anabelle comentara:
Achei que voc estivesse envolvido com algum e...  interrompera-se, como se escolhesse as palavras para o que tinha a dizer. Por fim, conclura:  Fico feliz por saber disso.
De novo Adam surpreendera-se com a ousadia de Anabelle, que em geral era tmida para falar daqueles assuntos. Talvez o champanhe, que parecia particularmente saboroso naquela noite romntica, tivesse algo a ver com tanta descontrao, ele pensara.
Depois, em silncio, ambos saborearam uma segunda taa da bebida efervescente, que descia-lhes como uma carcia, refrescando-lhes a garganta.
	Que noite magnfica  Anabelle murmurara, como se para si, erguendo o rosto para contemplar novamente a lua, cuja imagem refletia-se na gua da piscina.
Adam, por sua vez, no observava a lua, mas o rosto de traos perfeitos de Anabelle, os cabelos loiros-platinados, o corpo escultural... De repente, sentia urgncia de toc-la, de conhecer-lhe a maciez da pele, a suavidade das curvas da cintura e dos quadris...
	Diga-me...  ele pedira, baixinho  onde est a garota Anabelle, que conheo h tanto tempo?
	Aqui mesmo, ora  ela respondera, com um sorriso.
	No...  ele sorria de volta  aqui s h uma mulher. A mais linda, e esplendorosa que j vi.
	Ora...  Anabelle baixara o rosto, tmida como uma adolescente diante dos primeiros impulsos do amor.
	Quantos anos voc tem agora?  Adam perguntara.
	Quase vinte, farei aniversrio no ms que vem, como voc sabe.
	E eu completarei vinte e cinco, logo depois. J somos adultos, Anabelle.
	Sim.  Ela o fitava com uma interrogao nos olhos... que era, tambm, um sutil consentimento, para o que viria a seguir.
E quando ele a tomara-a nos braos para um longo beijo, Anabelle no resistira. Ao contrrio: correspondera com uma intensidade surpreendente, que o deixara ainda mais excitado.
Por um momento, Adam ainda quisera recuar. A voz da razo lhe dizia que no tinha o direito de agir daquela maneira; que Anabelle no era como as outras garotas... Mas o que poderia a sensatez, contra tanto fascnio e desejo?
Cedendo de uma vez por todas ao impulso dos sentimentos, Adam continuava a beij-la, enquanto acariciava-lhe os cabelos, soltando-os da presilha que os prendia. O toque das mos de Anabelle em suas costas nuas o fazia estremecer de prazer.
As carcias iam adquirindo uma ousadia maior,  medida que os beijos se intensificavam. Cupido estava  solta naquela noite, aprontando suas molecagens romnticas, enfeitiando os coraes.
Buscando mais intimidade, Adam tocara-lhe os seios, que pareciam vibrar como dois pssaros assustados. Estremecendo de prazer, ela sussurrara algo que Adam no compreendera... e nem precisava! Afinal, a linguagem do amor tinha sua fora prpria, que ia muito alm das palavras.
O desejo pulsava em Adam, pedindo uma proximidade ainda maior. Com mos vidas, trmulas de emoo, ele agora acariciava as pernas de Anabelle, as coxas, em busca da intimidade completa.
Onde tudo aquilo iria parar, Adam perguntara-se, num dado momento. A resposta era fcil e simples: ele desejava a consumao daquele ato, como precisava de ar para respirar.
Agora ambos estavam deitados no deque, acariciando-se com uma urgncia s permitida aos verdadeiros amantes. A garrafa de champanhe, j esquecida em algum canto, ficara pela metade.
	Quero voc  Adam murmurara, debruando-se sobre Anabelle.
	Eu tambm  ela respondera, abrindo os braos para receb-lo. Sem querer, resvalara a mo nas taas, que rolaram para fora do deque de madeira, indo espatifar-se contra o piso de cermica que circundava a piscina.
O som, de puro cristal, foi como uma campainha estridente a interromper a magia do momento. E Adam despertara daquele sonho dourado, para cair na dura realidade.
	Oh, como sou desastrada  dissera Anabelle, timida mente, abraando-o como fora.
Adam no respondera. Ofegante, incendiado de desejo, tivera de fazer um intenso esforo para, no fundo do corao, abrir mo de Anabelle e de tudo o que ela representava. Desprendera-se do abrao com um gesto delicado, mas firme. E sentara-se no deque, de costas para ela, respirando compassadamente a fim de recuperar o controle.
	O que foi?  Anabelle indagara, confusa, aps alguns instantes.
Como resposta, Adam levantara-se e afastara-se alguns passos. Em seguida sentara-se numa cadeira e s ento pedira:
	Por favor, venha at aqui. Precisamos conversar.
Lentamente, ela se erguera, ajeitando o vestido e os cabelos loiros, que caam-lhe como uma cascata dourada, at pouco abaixo dos ombros. S ento aproximara-se, com uma expresso to confusa quanto assustada.
	Eu fiz algo de errado?  perguntara, com voz trmula.
	Sente-se.  Adam apontara a cadeira a seu lado.  Quero lhe falar sobre algumas coisas.
Anabelle praticamente desabara sobre a cadeira. E s ento Adam comeara:
	Voc no disse nem fez nada de errado, minha querida.
	Ento, por que voc...
	Por favor  ele a silenciara, tocando-lhe os lbios com a ponta dos dedos.  Deixe-me terminar.
	Est bem  ela aquiescera, com um suspiro de frustrao.  Fale, Adam.
	A respeito do que aconteceu, ou quase aconteceu entre ns, eu... no posso dizer que esta foi a nica vez que perdi o controle. Mas sem dvida foi a primeira vez que tive certeza de que deveria parar.
	Por qu?  ela indagara, num fio de voz.
	Pelo simples fato de que me importo com voc, de que a considero uma pessoa importante em minha vida. E por
gostar demais de voc, Anabelle, eu parei... pois jamais seria capaz de feri-la.
Um sorriso iluminara o rosto confuso de Anabelle, diante daquelas palavras.
	Oh, no  preciso se preocupar com isso  ela afirmara, com evidente alvio.  Eu... no achei que voc estivesse me seduzindo. Ao contrrio: estava plenamente consciente do que acontecia e, mais do que isso, desejava entregar-me. Ainda desejo  acrescentara, baixando os olhos.
Adam sentira-se derreter por dentro. A resposta singela e franca de Anabelle era comovente. Ela no fazia jogos de amor, como a maioria das mulheres, confessava o que sentia, de maneira aberta, sem subterfgios. Essa era, talvez, a principal razo pela qual ele no a possuiria naquela noite, por mais que a desejasse.
	s vezes voc me v como uma criana, AdamAnabelle comentara, docemente.  Mas o fato  que j sou uma mulher. Voc mesmo se deu conta disso, ainda h pouco.
 Oh, minha querida!  Num impulso, ele tomara-lhe as mos entre as suas.  Voc no v que eu no posso... que no podemos, entende?
	No  ela respondera, angustiada.  Por favor, fale de um modo mais claro, Adam.
	Est bem.  Ele soltara-lhe as mos e a fitara no fundo dos olhos.  Serei franco e direto. Voc se lembra das muitas vezes em que lhe contei sobre meu sonho de ser um fotgrafo profissional?
	E de sair pelo mundo em busca de aventuras? Claro que me lembro. Mas o que isso tem a ver com... conosco?
	Muito.  E Adam confidenciou, de um s flego:  H cerca de um ms, li um anncio numa revista... Peter Broer, um famoso ecologista e reprter, estava formando uma equipe para sua prxima expedio  ilha Catalina. Ele precisava de um cinegrafista e de um fotgrafo submarino. Mandei-lhe uma proposta de trabalho e fui admitido como estagirio, na equipe.
A princpio, Anabelle nada dissera. Apenas o fitara com espanto, como se lhe custasse captar o verdadeiro sentido daquela revelao.
	Para um fotgrafo amador, como eu, trabalhar junto com Peter Broer  uma honra, um brilhante incio de carreira.
	Quer dizer que voc vai partir mesmo?  O espanto de Anabelle ia se transformando numa profunda tristeza.
	Por favor, no fique assim. Voc sabe o quanto desejo deixar Collier Bay e trabalhar como fotgrafo.
	Sim  ela aquiescera, aps um longo momento.  Eu deveria ficar feliz... por voc. Mas acho que sou muito egosta, pois s consigo pensar em como ser difcil suportar sua ausncia.
	Para mim tambm ser, Anabelle. Apesar do meu temperamento aventureiro e de minha paixo pela arte de fotografar, eu nasci e me criei em Collier Bay. Tenho razes aqui... razes de afeto, compreende?
	E por falar nisso, voc j contou a seus pais?
	Ainda no. Queria que voc fosse a primeira pessoa a saber. Preciso do seu apoio, Anabelle Simmons.
	E eu preciso do seu amor, Adam Garret  ela confessara, fitando-o com uma expresso de splica.  Por favor, fique. Ns podemos...
Anabelle no completara a frase, e nem era preciso. Pois Adam compreendia muito bem o significado.
	Se soubesse o quanto gosto de voc, Anabelle  ele dissera, aps um longo momento.  Eu adoraria atender o seu pedido...
	Mas voc no pode... certo?  ela conclura, com amargura.
	Tenho de obedecer minha natureza. No nasci para viver aqui, ao menos no constantemente. Preciso correr mundo, ver lugares novos, me aventurar. Quero fazer o que mais amo, que  fotografar, e ganhar algum dinheiro com isso. No necessito de muito, apenas o suficiente para levar uma vida digna e confortvel.
	E em nome desse sonho voc sacrificar as pessoas que diz amar.
	Eu me sacrificarei, em primeiro lugar  ele se defendera, com veemncia.  E esperarei que essas pessoas, que tambm dizem me amar, compreendam minha necessidade de viver da maneira que julgo melhor.
	Muito bem.  Anabelle levantara-se bruscamente. E sem se importar com as lgrimas que escorriam-lhe pelo rosto, despedira-se:  Desejo-lhe muita sorte em seu empreendimento, Adam Garret. Tomara que voc consiga tudo o que deseja e que seja feliz. Apenas, eu gostaria de fazer parte do seu mundo, como voc faz parte do meu.
	Como pode dizer isso?  ele retrucara, indignado.  Voc  muito importante no meu mundo, Anabelle Simmons.
	No mais do que seu desejo de aventuras, Adam Garret. No mais do que Peter Broer e sua equipe, que por algum tempo desfrutaro sua companhia, seu jeito adorvel de ser...  Aps uma pausa, ela conclura:  Sinto muito... por ns dois. E pelo que poderia ter sido.
Depois daquela noite, Anabelle nunca mais fora a mesma.
 
CAPITULO V

Apoiando-se por um instante na porta de carvalho que dava para as escadas que conduziam ao andar trreo da casa, onde funcionava a Loja Wedding Bells, Anabelle sorriu.
O contato com a madeira slida e nobre dava-lhe um certo conforto, ela pensou, lanando um olhar pela sala, observando com carinho os mveis antigos mas bem conservados.
As coisas que eram constantes em sua vida, tais como aqueles mveis e a casa, herana dos pais, proporcionavam-lhe uma sensao de segurana, que Anabelle prezava muito.
Quando o mundo parecia ameaador, quando o cho lhe faltava sob os ps, era ali, ao abrigo daquela velha casa, que ela reencontrava o equilbrio... Essa era uma riqueza impalpvel, que ningum poderia lhe tirar.
O sorriso agora tornava-se mais largo, iluminando o rosto de Anabelle. A manh de primavera estava azul e ensolarada. E ela bem que gostaria de continuar ali, no aconchego da sala silenciosa, que mais parecia um ninho acolhedor. Porm, era preciso trabalhar. Mais um dia se iniciava e havia muito a fazer.
Alis, Anabelle j tinha traado um roteiro de atividades: em primeiro lugar, consultaria o livro de contabilidade e separaria as dvidas em trs grupos: as que teriam de ser saldadas at o final da semana, as que poderiam esperar pelo prximo ms e as urgentes, que talvez a obrigassem a fazer um emprstimo no banco.
Quisesse ou no, tinha de reconhecer que os negcios iam de mal a pior... Essa era a parte mais difcil, Anabelle
pensou, enquanto o sorriso desaparecia-lhe dos lbios, cedendo  preocupao. S dali a algum tempo, e depois de muito trabalho, ela conseguiria resolver a situao.
Bem, no adiantava desesperar-se, ela decidiu, abrindo a porta e descendo as escadas. O melhor a fazer era manter a sensatez e a perseverana que, afinal, sempre tinham sido suas principais caractersticas.
Consultando o relgio de pulso, Anabelle constatou que j passava das oito da manh. Pela primeira vez, em vrios anos, ela havia se atrasado alguns minutos para abrir a Wedding Bells.
O som de vozes no interior da loja a sobressaltou. Quem poderia estar ali, Anabelle perguntou-se, caminhando a passos largos em direo a sua mesa de trabalho.
De passagem, viu a porta da loja j aberta, com a placa Seja bem-vindo dependurada do lado de fora da maaneta.
O que estaria acontecendo, ela pensou, apreensiva. E ento deparou com uma cena inesperada: sua mesa de trabalho estava ocupada... por Lianne! Em vez de seus costumeiros jeans e camiseta, a garota usava um vestido, de estilo clssico, retirado naturalmente do guarda-roupas da prpria Anabelle.
Diante da mesa, acomodada numa cadeira, estava Celeste Costello, anunciando mais uma de suas grandes ideias.
	Poderamos comear servindo ostras vivas  dizia, com entusiasmo.  Voc acha que Anabelle conseguir encomend-las a tempo?
	Sim, mas no creio que esta seja, de fato, uma boa ideia.  A voz de Lianne soava cautelosa.
	Mas pense na possibilidade de um dos convidados encontrar uma prola no interior da ostra! No seria fantstico se isso acontecesse?
	Mas essa hiptese  muito remota, senhora.  Erguendo os olhos, Lianne viu Anabelle se aproximando.  Oh, bom dia, maninha! Dormiu bem?
Antes que Anabelle respondesse, Celeste Costello levantou-se para cumpriment-la.
	Como vai, querida?
	Bem, obrigada  Anabelle respondeu, num tom polido.
A perspectiva de ouvir as sugestes daquela mulher, logo no incio do expediente, era desanimadora. Por isso sentiu-se aliviada ao constar que ela estava de sada.
	Eu j vou embora, meu bem. S passei por aqui para lhe falar sobre uma ideia que minha irm Sophie teve, a respeito de...
	Ostras  Lianne completou.  E eu estava justamente explicando  sra. Costello que a ideia no  to boa assim.
	De fato, j temos uma lista dos canaps que sero servidos, na abertura da recepo  disse Anabelle, vol
tando-se para Celeste Costello.  A propsito, consegui um timo desconto na confeitaria de Alexander Billy.
	Ah, eis a uma boa notcia!  Celeste aprovou, satisfeita.
	Mas duvido que Billy mantenha o desconto, se mudarmos a lista dos canaps.
	Oh,  verdade  Celeste Costello concordou, preocupada. Apesar de dizer sempre que "dinheiro no era problema", ela prezava-o... e muito!  Nesse caso, talvez seja melhor esquecermos as ostras.
	Assim  que se fala, sra. Costello!  Lianne exclamou, lanando um olhar significativo a Anabelle.
	Alm do mais, a ideia j no me parece to boa... Bem, queridas, voltarei numa outra hora. Tenham um bom dia!
	O mesmo para a senhora  disse Anabelle, num tom polido, secundada por Lianne.
Celeste Costello saiu, fazendo tilintar o mbile de pequeninos sinos, pendurado atrs da porta.
O som cristalino dos metais se tocando cessou. E Lianne, levantando-se da cadeira de Anabelle, ofereceu:
	Sente-se, aqui, maninha.
Anabelle agradeceu com um gesto de cabea e acomodou-se  mesa de trabalho. Em seguida comentou:
	Voc costuma levantar-se mais tarde. O que a fez
despertar to cedo, hoje... Uma aula de msica, talvez?
	De fato, eu e meus amigos costumamos nos reunir uma vez por semana, pela manh, para estudarmos Harmonia com o professor Michael, que  muito bom.
	Oh,  verdade!  Anabelle assentiu, abrindo a pri meira gaveta da mesa,  procura de umas faturas que havia deixado ali, no dia anterior. Mas no conseguia encontr-las. Interrompendo a busca por um instante, sorriu para a irm.  V para sua aula, maninha. Sinto-me com tima disposio, nesta manh. Desculpe-me por t-la deixado to preocupada, ontem.
	Fico feliz por saber que voc est bem  disse Lianne, sorrindo de volta.  Mas, mesmo assim, no irei  aula de Harmonia.
	Por que no?
	Porque ontem tomei uma deciso  Lianne anunciou, com veemncia.
	Que tipo de deciso?  Anabelle indagou, com estranheza.  E.por que est usando meu vestido? Voc sempre detestou o estilo clssico.
	Achei este modelo mais adequado ao trabalho aqui da loja.
Anabelle fez um gesto vago. No estava entendendo a atitude da irm.
	Lianne, que tal responder minha primeira pergunta?  E repetiu:  Por que no quer ir  aula de Harmonia? Voc...
teve algum desentendimento com seu grupo de estudos?
	De jeito nenhum. Ns nos damos muito bem, como voc j sabe.
De fato, Lianne adorava os colegas, bem como o professor Michael, que era muito competente. Anabelle gostava de v-los reunidos, brincando, tocando, conversando sobre msica com a alegria natural da juventude.
	Bem, se no h problema algum com seus amigos, no vejo por que voc deva faltar  aula. Alm do mais, aposto que eles adoraro saber de sua admisso na Escola Juilliard de Bellas-Artes.
	Mas eu no vou para a Juilliard, maninha  Lianne declarou, baixando os olhos.
Anabelle ergueu-se, com uma expresso de dvida. Teria ouvido bem, perguntou-se, confusa. Sua irm caula, que h anos sonhava em ingressar numa das escolas de Bellas-Artes mais famosas do pas, estava abrindo mo desse privilgio?
	Lianne...  disse Anabelle, erguendo-lhe o queixo. Lianne, olhe para mim.
A garota obedeceu. Seus olhos cor de avel estavam rasos de lgrimas, que ela enxugou com um gesto firme.
	s vezes pareo uma manteiga derretida, no  mesmo?  disse, com voz trmula.
	Chorar no  pecado  Anabelle sentenciou, acariciando-lhe o rosto.  Mas gostaria de saber o motivo dessas lgrimas.
Lianne tomou flego, como se fizesse um intenso esforo para controlar o choro. Por fim, num tom carregado de remorso, disse:
	Eu deveria ter lhe perguntado, no?
	Perguntado o qu, maninha?
	Deveria ter me inteirado da verdadeira situao da Wedding Bells. Mas portei-me como uma adolescente mimada, dando-me ao luxo de sonhar com uma brilhante carreira musical, enquanto o trabalho pesado caa sobre seus ombros.
	Oh, por favor, no seja to dramtica.  Aproximando-se da irm, Anabelle abraou-a.
	Como pude ser to egosta?  Lianne agora chorava, sem mais tentar se conter.  Como pude ignorar o quanto voc estava se desgastando, s para me poupar?
	Procure ver a situao por um outro ngulo  Anabelle sugeriu, numa tentativa de confort-la.  Ns somos pessoas diferentes... Eu optei pelo ramo do comrcio e, voc, pela Arte. No existe nenhuma injustia, nisso.
	Mas poderei construir minha carreira sobre a sua desgraa, maninha.
	Desgraa!?  Anabelle repetiu, contendo um sorriso.
 Por favor, querida, no faa tanto drama.  verdade que me senti desgastada, nos ltimos tempos. O rompimento com Steve, mais os compromissos profissionais acabaram me fragilizando.
	Voc quase ficou doente  Lianne afirmou, por entre as lgrimas.  O desmaio que sofreu ontem...
	Isso j passou  Anabelle a interrompeu.  Eu estava muito estressada e...
	E como no estaria?  Lianne apartou, desvencilhando-se delicadamente do abrao. Apontando uma pilha de papis sobre a mesa, acrescentou:  Tambm, com tantas contas a pagar, qualquer pessoa ficaria desgastada.
Anabelle olhou na direo que a irm apontava. E ento viu, a um canto da mesa, as faturas e a carta de cobrana que recebera.
	Voc no deveria ter mexido nesses papis.
	Por que no?  Lianne argumentou.  Para continuar na ignorncia a respeito das nossas finanas? Para obrigar voc a se desdobrar ainda mais, a fim de pagar as altas mensalidades da Escola Juilliard?
Anabelle fitou a irm com infinito carinho. E tentou tranquiliz-la:
	Escute, querida, a situao no  to grave quanto parece.
	No minta para mim!  Lianne ordenou, ofendida.
	E oua bem o que vou lhe dizer: daqui por diante, no mais me comportarei como uma garota mimada e inconsequente. Eu a ajudarei em tudo o que for preciso e dividirei com voc os encargos da loja.
Anabelle sorriu, com uma expresso carinhosa:
	Voc sempre me ajudou, Lianne.
	 mesmo? E de que jeito? Tocando a Marcha Nupcial, nas cerimnias de casamento?
	Isso, por exemplo,  de grande ajuda para mim. Caso contrrio, eu teria de contratar outro pianista.
	O fato de eu tocar nos casamentos no significa muito... Ao menos no tanto quanto o seu esforo de trabalhar todos os dias, de manh  noite, nesta loja.
	J lhe disse que somos pessoas diferentes, Lianne.
A garota sorriu e tomou a mo de Anabelle, num gesto de afeto.
	Voc  um amor, maninha. Sempre compreensiva, sempre disposta a perdoar os erros das pessoas, inclusive os meus...
	Escute, vamos parar com essa conversa boba, est bem?  Anabelle fitou-a no fundo dos olhos cor de avel.
	Se eu lhe pedir um favor, voc far?
	Claro  Lianne consentiu.  Tudo o que voc quiser.
	Ento, permita-me ter o privilgio de comemorar sua entrada na Escola Juilliard de Bellas-Artes. No h nada que eu deseje mais, no momento, do que isso--- Anabelle concluiu, com um sorriso.
Lianne, porm, continuou sria:
	Se voc pensa que vou abandon-la no momento em que a Wedding Bells est praticamente falindo, engana-se redondamente.
	Falindo!?  Anabelle repetiu, espantada.  J lhe disse para no ser to exagerada, maninha.
Ignorando o aparte, Lianne prosseguiu:
	Abrirei mo da Escola Juilliard e ficarei aqui, a seu lado, assumindo a parte que me cabe no trabalho e na manuteno de nossa casa.
	Mas...
	Esta  minha ltima palavra. E agora, se no se importa, gostaria de encerrar este assunto.  Num tom veemente, Lianne acrescentou:  Vamos ao trabalho.
Anabelle conhecia a irm o suficiente para saber que, nesses momentos de impasse, era melhor no insistir. Numa outra ocasio, quando Lianne estivesse mais calma, ela a chamaria para uma nova conversa e ento tudo se resolveria.
Mas, ao contrrio do que Anabelle previa e desejava, no foi isso que aconteceu.
Trs dias se passaram. E todas as tentativas de Anabelle para demover Lianne daquela ideia absurda foram inteis. A garota continuava firme em seu ponto de vista. Alis, j havia informado os amigos de que, apesar de ter sido admitida na escola de seus sonhos, no seguiria com os estudos de msica... Ao menos no por enquanto.
Anabelle, por mais que tentasse manter a calma, j estava perdendo a pacincia com a ajuda de Lianne, que mais a atrapalhava do que auxiliava. Usava seus vestidos, era inbil com a clientela e tinha ideias no muito diferentes das de Celeste Costello. Fazer croquetes em formato de corao, por exemplo... Ou abrir uma lanchonete para vender os canaps e doces que sobrassem das cerimnias... Ou, ainda, anunciar os casamentos pela emissora de rdio local, em vez de gastar dinheiro com convites! E a ideia de usar toalhas de papel no lugar das de linho branco, que afinal eram uma tradio obrigatria em qualquer casamento de bom gosto?! 
Anabelle tentava ser o mais delicada possvel ao rejeitar aquelas sugestes que, segundo Lianne, eram simplesmente geniais. E isso estava lhe custando bastante caro. A presena constante de Lianne na loja, longe de ser um alvio, s servia para deix-la ainda mais desgastada.
Ao final de uma semana, Anabelle encontrava-se num pssimo estado de nimo.
Quanto a Lianne, no parecia muito melhor... Se dentro de duas semanas no enviasse a ficha de matrcula  Escola Juilliard de Bellas-Artes, juntamente com um vale postal cobrindo as despesas, acabaria perdendo a vaga. Mas parecia no se importar com isso, ou melhor: estava decidida a manter sua palavra.
Era preciso tomar uma providncia, Anabelle pensava, angustiada. Mas qual? No poderia simplesmente obrigar a irm a matricular-se na Escola Juilliard. Aps fechar a loja, numa sexta-feira, Anabelle fez o que no fazia h muito tempo: sentou-se na soleira da porta e ali ficou, sem pensar em nada, observando as flores do jardim. Era primavera em Collier Bay, no Estado do Oregon, na costa oeste americana. No jardim, duas rosas amarelas, a cor preferida de Anabelle, destacavam-se entre folhagens, narcisos e gernios vermelhos.
O som do mar, muito prximo, chegava aos ouvidos de Anabelle como uma msica suave e constante. O sol se punha, em matizes que variavam do prpura ao dourado, num espetculo deslumbrante.
Anabelle ficou ali, observando a mudana das cores no cu, vendo passar os moradores de Collier Bay que se retiravam para casa, ansiosos para descansar e gozar o final de semana.
A noite caiu sobre a cidade, envolvendo-a em seu manto de sombras. A lua, j minguante, surgiu no cu.
A cerca do jardim de Anabelle era baixa, de madeira. Abrindo-se um pequeno porto, caminhava-se por uma estreita calada de pedra, at a porta da Loja Wedding Bells, que funcionava no andar trreo da casa.
Anabelle ouviu o porto se abrir e viu um vulto se aproximando. No poderia ser um cliente, quela hora. Alis, ela nem sequer pensou que fosse. Sabia muito bem de quem se tratava.
	Adam Garret  murmurou, com aquele misto de alegria e inquietao que sempre a assaltava, quando o via.
	Boa noite, Anabelle  ele cumprimentou-a, com um sorriso que parecia iluminar tudo ao redor. Na mo direita, segurava uma pizza, da qual desprendia-se um aroma bastante tentador.
	Boa noite, Adam  ela respondeu, levantando-se.
	Estou atrapalhando?
De acordo com o costume que adotara nos ltimos anos, Anabelle deveria dar um jeito de fugir... Mas, por algum motivo inexplicvel, ela preferiu consultar seu corao. E surpreendeu-se ao constatar que sim, que desejava, realmente, que Adam ficasse.
Essa revelao deixou-a to emocionada quanto insegura. Gracejando para disfarar o que sentia, ela apontou a pizza e perguntou:
	Voc arrumou um emprego temporrio?
Adam assumiu uma expresso exageradamente sria, para responder:  Sim. Esta  minha primeira entrega.
	Ento, voc errou de endereo, meu caro, pois aqui ningum pediu pizza.
	No?  Ele fez uma careta cmica.  Que pena... E o que sugere que eu faa com esta maravilha da cozinha italiana? Se ao menos eu pudesse oferec-la s gentis donzelas que moram neste casaro...
	Gentis donzelas?  Anabelle repetiu, rindo.  Voc anda lendo romances demais.
	Bem, estou tentando convidar voc e Lianne para saborear esta pizza  ele explicou, no mesmo tom.  Ser que fui convincente? No responda ainda, Anabelle Simmons. Se no me engano, voc adorava pizza a quatro formaggi. Espero que no tenha mudado de preferncia.
	Eu no mudo nunca, Adam Garret  ela respondeu, com uma ponta de amargura, que tratou de sufocar imediatamente.
"Adam trouxe minha pizza predileta", pensou. "Est me oferecendo sua amizade, que significa muito... Portanto, no tenho o direito de exigir-lhe algo mais."
	Voc odiava pizza a quatro formaggi  ela comentou, abrindo a porta para que Adam entrasse na casa.
	Nem tanto  ele respondeu, subindo as escadas.
Enquanto o seguia, Anabelle recordou-se:
	Se no me falha a memria, a sua pizza preferida era... atum! Certo?
	No  mais.
	Por qu?
	Porque j faz algum tempo que os ecologistas esto promovendo uma campanha contra o consumo de atum.  Parando por um momento, Adam voltou-se para explicar: 	Algumas empresas, dirigidas por pessoas inescrupulosas, costumam jogar grandes redes no mar, para pescar atum. S que os golfinhos vm junto e morrem tambm. Isso os est ameaando de extino.
	Ento, o melhor que temos a fazer  parar de comprar latinhas de atum  Anabelle concluiu.
	E suponho que isso no lhe custe muito, pois voc sempre detestou atum.
	 verdade  ela admitiu.  Mas, mesmo assim, vou passar adiante o recado dos ecologistas.
	Faa isso, Anabelle.
Minutos depois, sentados  mesa da cozinha, Anabelle, Adam e Lianne saboreavam a pizza, que na verdade era mista: metade a quatro formaggi e metade de milho com requeijo. Como acompanhamento, um vinho rose, que Anabelle ganhara de uma cliente, no ltimo natal.
	Puxa, ia me esquecendo de uma coisa importantssima 	disse Adam, j no final da refeio.
	Qual?  ambas perguntaram, quase ao mesmo tempo. Ora, eu trouxe a pizza para comemorar a vitria de Lianne.  Erguendo seu copo de vinho, que estava pelo meio, Adam acrescentou:  Bem, ainda temos bebida suficiente para fazer um brinde. A Lianne Simmons, a mais jovem, encantadora e talentosa pianista que conheo. Que sua passagem pela Escola Juilliard seja repleta de bons momentos.
Anabelle e Lianne no o acompanharam, no brinde. Apenas entreolharam-se e depois voltaram-se para Adam.
	Eu... disse algo de errado?  ele perguntou, sem entender.
	Claro que no.  E Anabelle explicou:  Lianne de cidiu abrir mo do curso na Escola Juilliard.
	Como?  Adam espantou-se.  Mas isso  um absurdo!
	Foi o que eu disse a ela  Anabelle afirmou, pesarosa.
 Se voc conseguir convenc-la a mudar de ideia, eu lhe serei eternamente grata.
Adam voltou-se para Lianne, que erguendo a mo, num gesto decidido, pediu:
	Por favor, no me venha com sermes. J os ouvi, aos montes, de minha querida irm.
	Certo.  Adam colocou o copo sobre a mesa e fitou-a com severidade.  Voc poderia ao menos explicar-me o
motivo dessa atitude maluca?
	Sim.  Lianne ergueu o queixo, com uma expresso de desafio.  E aposto que voc j no me achar to maluca, depois de ouvir minha justificativa.
	Nada que voc diga poder me convencer do contrrio.
	Nem mesmo o fato de minha irm estar esgotada emocionalmente, devido ao rompimento de seu noivado... E ain
da por cima com a Wedding Bells  beira da falncia?
	Lianne!  Anabelle repreendeu-a, com as faces cora
das pelo embarao. E apressou-a a explicar:  Isso no  verdade, Adam. Tive algumas dificuldades financeiras e, para ser franca, ainda no consegui regularizar totalmente a situao. Mas trata-se de um problema temporrio, que ser resolvido dentro de pouco tempo.
	Ela est atenuando as coisas, Adam  Lianne afirmou, categrica.
	Maninha...  Anabelle fuzilou-a com os olhos  se voc continuar me desmentindo assim...
	Voc me dar umas palmadas e me mandar para a cama?  Lianne completou, sorrindo.  Ora, eu j no sou criana, Anabelle. Gosto de falar de maneira direta e franca.
	Por isso est decretando a falncia da Wedding Bells?
 Anabelle retrucou, rspida.
	E no  exatamente isso que acontecer, se no saldarmos nossas dvidas?
Anabelle fechou os olhos por um instante, desejando que aquela cena desagradvel fosse apenas um sonho. Mas, quando tornou a abri-los, deparou com os olhos verdes de Adam, que a fitava com intensidade.
	Estou comentando esse assunto na frente de Adam, porque sei que podemos confiar nele como a um irmo  Lianne justificou-se, num tom mais ameno.  Claro que eu no disse nada sobre isso s nossas clientes.
	Era s o que faltava!  Anabelle exclamou, perdendo a pacincia.  Se voc contasse  sra. Celeste Costello sobre nossa situao-financeira...
	Eu jamais faria isso  Lianne sentenciou, num tom dramtico.
Um silncio denso e pesado caiu no ambiente. E Adam quebrou-o, aps um longo momento:
	Lianne, voc sempre quis ingressar na Escola Juilliard de Bellas-Artes. Agora, que esse sonho est prestes a se tornar realidade... ser que faz sentido desistir dele?
A garota fitou-o como se Adam tivesse acabado de proferir uma calnia.
	Mas ser que estou falando grego? Ser que vocs no conseguem compreender minha lealdade, meu senso de famlia e companheirismo...  interrompendo-se, olhou de um para o outro, antes de finalizar.  Minha ltima palavra  a seguinte: ficarei ao lado de Anabelle, aqui, nesta casa, em Collier Bay, na costa oeste de nosso pas. No vou abandon-la e partir para a costa leste, a fim de realizar o sonho de me formar pianista. Isso seria injusto, absurdo e cruel, no acham?
	Sinceramente, no  Adam respondeu, com uma calma que s serviu para exasperar Lianne ainda mais.
	Quer dizer que se eu a deixasse sozinha...
	Mas Anabelle no ficar sozinha  Adam a interrompeu. E ante a expresso surpresa de Lianne, explicou:  Eu estarei bem aqui, na casa ao lado.
	Isso no  verdade  a garota rebateu, com firmeza.
 Voc permanecer em Collier Bay at seu p sarar.
	J sarou.  E Adam apontou o p direito, sem nenhuma bandagem, calado num fino mocassim, tal como o esquerdo.
	Estou contente em saber que j se recuperou, Adam  disse Anabelle.
Mas Lianne retomou a discusso:
	Voc partir de um momento para o outro, como sempre faz.
	Mas ficarei aqui at o final...  Adam ia dizer "da estao"... Porm, tinha um convite para participar de uma
expedio a Java. A proposta era boa, mas ele ainda no se decidira. Mesmo assim, no queria prometer algo que depois no pudesse cumprir. Portanto, preferiu completar a frase de outro jeito:  At o final do ms.
Lianne fez um gesto vago, antes de dizer:
	Que bom, pois tanto eu quanto Anabelle adoramos sua companhia. Mas isso no resolve o nosso problema.
Adam ficou pensativo por alguns instantes. Seus olhos desviaram-se de Lianne para Anabelle, que jamais lhe parecera to bonita.
Ele havia conseguido um pequeno record, dessa vez: ficara uma semana longe de Anabelle. Mas, naquela noite, no suportara a solido... E viera v-la.
Uma nuvem de tristeza turvou-lhe os olhos cor de jade. Era sempre assim, ele pensou... Talvez fosse melhor se acostumar com a decepo e as cobranas das pessoas a quem amava.
O que fazer, Adam perguntou-se, com um suspiro. Adoraria dizer que estava disposto a ficar com Anabelle durante o ano inteiro, para que Lianne pudesse partir em paz. Mas sua alma aventureira pedia novos ares, novas jornadas...
Aos trinta anos, Adam Garret no sabia viver sem liberdade. Queria ir aos lugares que desejasse, na hora que lhe parecesse melhor, sem ter que prestar satisfaes a ningum.
Nem por isso sua relao com as mulheres em geral fora prejudicada. O motivo era muito simples: Adam jamais oferecia, ou exigia, mais do que a emoo do momento. Deixava que as coisas acontecessem, que o encanto se manifestasse e a atrao surgisse de um modo natural. Quando decidia passar alguns dias ou semanas na companhia de uma mulher, certificava-se primeiro de que ela compreenderia a fugacidade daquela relao. Deixava bem claro sua posio, para no mago-la, nem iludi-la.
Apenas, s vezes, Adam sentia-se frgil. Nessas ocasies, tinha a ntida impresso de que estava perdendo algo precioso, de que a vida escapava-lhe das mos, a despeito de sua vontade de desfrut-la intensamente. Mas depois alguma novidade acontecia, a vida seguia seu curso... E o tempo passava.
	No adianta, Adam.  A voz de Lianne interrompeu-lhe as divagaes.  Nada do que voc disser me far mudar de ideia.
	Nem mesmo se eu me dispuser a ficar em Collier Bay at o final da primavera... ou do vero?  Mal terminou de falar, Adam levou a mo aos lbios.
Anabelle e Lianne o fitaram, surpresas... Mas no mais do que ele prprio. As palavras haviam lhe escapado da boca como pssaros que fugissem de uma gaiola.
	Est falando srio, Adam Garret?  Lianne indagou, ainda no refeita da surpresa.
	Estou  ele respondeu, no mesmo estado. Agora, que havia dado sua palavra, no poderia voltar atrs.
	Isso  maravilhoso, mas ainda assim no pretendo mudar de ideia  Lianne sentenciou.
	Mas estou lhe garantindo que durante os prximos cinco meses...
	Sim, eu j entendi  Lianne apartou.  Sei que voc apoiar Anabelle no que for preciso, durante esse perodo.
Mas e quanto aos prximos quatro anos, Adam Garret? Quem a ajudar?
	Eu no disse que ela era uma cabea-dura?  Anabelle interveio.
	Sou apenas uma pessoa decidida.  Lianne levantou-se.  E se vocs dois pudessem me fazer um favor, eu
agradeceria muito.
	Qual?  Adam perguntou.
	Esqueam que algum dia eu sonhei em frequentar a Escola Juilliard, sim?
Anabelle ia contestar, mas o som da campainha a interrompeu. Erguendo-se, ela consultou o relgio que pendia da parede, acima da geladeira. J passava das oito e meia da noite.
	Est esperando algum, Lianne?  perguntou.
	No. E, se vocs me do licena, vou para o quarto ler um pouco.  E a garota afastou-se, depois de despedir-se de ambos com um beijo.
A campainha soou novamente e Anabelle disse a Adam:
	Vou descer para atender. Fique  vontade; voltarei num instante.
	Certo. Enquanto isso, cuidarei de tirar a mesa e lavar a loua.
	No se incomode.
	No  incomode algum  ele respondeu, recolhendo os pratos e talheres.
Anabelle afastou-se para atender a porta. Enquanto descia a escada que conduzia ao andar trreo, pensava no quanto havia ficado feliz ao saber que Adam pretendia permanecer em Collier Bay at o final do vero. No adiantava ocultar a verdade de si mesma... A certeza da presena de Adam era como um blsamo^ em meio s dificuldades pelas quais estava passando.
A campainha soou novamente. Anabelle perguntou-se se no seria Celeste Costello quem a visitava, para anunciar alguma de suas grandes ideias.
Sorrindo, ela girou a chave na fechadura e abriu a porta.
Nem mesmo a ideia mais mirabolante da velha sra. Costello teria causado em Anabelle uma surpresa maior do que a que ela agora experimentava.
	Boa noite, minha querida!
	Ah, que alegria imensa rev-la, meu bem!
Ali estavam as irms Jessie e Evelyn Buchanon, primas do falecido pai de Anabelle.
Em meio a uma verdadeira avalanche de beijos e abraos, as duas senhoras exclamavam:
	No tenha mais medo, pobre criana. Ns estamos aqui para ajud-la, neste momento difcil.

CAPITULO VI

Srta. Lianne Simmons... Anabelle 'entrou no quarto da irm e fechou a porta  estou com vontade de estrangular voc!
	Por qu, maninha?  Lianne indagou, com ar inocente. 
Recostada na cama, lia um livro sobre Heitor Villa-Lobos, um grande compositor brasileiro.
	No se faa de desentendida, garota  Anabelle repreendeu-a, furiosa.  Entre os abraos e cumprimentos efusivos, elas falavam o tempo todo que "a querida Lianne j nos colocou a par dos fatos". Portanto, no me venha com subterfgios.
	Elas... quem?  Lianne indagou, muito calma.
Sentando-se na beira da cama, Anabelle encarou-a com severidade.
	Se voc tivesse alguns anos a menos, eu lhe daria umas boas palmadas. Agora pare com essa encenao e diga-me por que decidiu chamar nossas primas para c.
Lianne baixou os olhos e Anabelle lamentou-se:
	J no chegam os problemas que temos, e ainda mais esta!
	Voc fala como se Evelyn e Jessie fossem nos atrapalhar Lianne comentou, aps alguns instantes.  Entretanto, elas gostam de ns. So primas de nosso falecido pai e...
	Sim, mana  Anabelle apartou, num tom mais brando.
	Tambm gosto delas, apesar de no termos muito contato. Mas receb-las, nessa fase to difcil, no me parece uma boa ideia.
	Elas so pessoas timas  Lianne insistiu.  Lembra-se dos cartes que nos mandam no Natal e na Pscoa, cheios de belas mensagens? Anabelle reagiu, impaciente:
	Por favor, seja razovel. J disse que gosto de nossas primas... Mas no estou disposta a conviver com elas durante o prximo sculo.
	E quem lhe falou que ter de fazer isso?
	Se voc vir o tamanho das bolsas, valises e mochilas que trouxeram, entender o que quero dizer.
	Como assim?
	Elas tm bagagem suficiente para ficarem aqui at bem depois do ano 2000.  Anabelle fez uma pausa.  Voc ainda no me contou o motivo pelo qual convidou-as para vir.
	Posso parecer boba, maninha...  Lianne prosseguiu 	mas no sou. Percebi muito bem minha incompetncia em ajud-la  afirmou, como se lesse os pensamentos de Anabelle.  E achei que, com a famlia reunida, poderamos realizar um bom trabalho. Assim, a presso sobre seus ombros diminuiria.
	Oh, maninha...  Anabelle murmurou, comovida, esquecendo-se momentaneamente dos problemas e acariciando os cabelos curtos da irm.  Voc no deveria se preocupar tanto comigo.
	Reconhecer as prprias limitaes  sinal de maturidade  Lianne sentenciou.  Meu ex-professor de Harmonia vive dizendo isso, com toda a razo. Admitir um erro  dar o primeiro passo para corrigi-lo.
	Ex-professor de Harmonia  Anabelle repetiu, me neando a cabea.  No gosto de v-la falar assim, maninha.
	Ora, o que tem demais? Eu parei de estudar, no foi? Portanto, no tenho mais professor.
	At quando voc pretende levar essa teimosia adiante?
	Anabelle perguntou, com tristeza.
	J disse que minha desistncia da Escola Juilliard  definitiva.
	Pois eu jamais desistirei de faz-la mudar de ideia.
O prazo para sua matrcula ainda no venceu.
	Pouco me importa.
Um breve silncio instalou-se entre ambas. O som de risos, vindo da sala de estar, fez com que Anabelle se levantasse.
	Bem, maninha, eu adoraria continuar discutindo a Escola Juilliard com voc, mas no momento temos um outro problema em mos.
	Evelyn e Jessie podem no ser um problema... Dependendo do modo como encararmos a presena delas, em nos
sas vidas.
	No consigo ver a situao de outra maneira.
	Pois deveria, j que elas vieram com a sincera inteno de nos apoiar. Alis, desde que nossos pais morreram, ambas nos enviam cartes e telegramas oferecendo ajuda.
	E eu sempre -respondi no.
	Por qu?
Anabelle tornou a impacientar-se:
	Oh, Lianne, voc no compreende? Ns duas somos uma famlia. E devemos cuidar de nossos prprios problemas.
	Evelyn e Jessie so primas de nosso pai. Portanto, pertencem a nossa famlia, tambm. No entendo por que      voc tem tanta preveno contra elas. 
	Isso no  verdade.  Anabelle passou a mo pelos ---- cabelos loiros e platinados, num gesto de desalento.  Para ser franca, acho-as um pouco... excntricas.
Como assim?
 Voc com certeza no se lembra de quando Evelyn e Jessie nos visitaram, h muitos anos. 
  Realmente, no.
	Claro, voc tinha apenas um ano e meio. Mas eu ia completar sete e recordo-me muito bem.
	O que elas fizeram?
	O que sempre fazem, ou seja: portaram-se de maneira excntrica e, de certo modo, inconveniente.
	Maninha, ser que voc no est exagerando?
	Pode apostar que no.  Anabelle ficou pensativa por alguns instantes.  S no entendo uma coisa...
	Sim?
	Por que voc no me contou que elas viriam?
	Eu no sabia.
	Como assim?
	Tudo o que fiz foi escrever-lhes uma carta, comentando sobre nossas dificuldades atuais. Elas ento me enviaram um telegrama, dizendo que dariam um jeito de nos ajudar. Como sei que desfrutam uma situao financeira bastante confortvel, pensei que planejassem depositar algum dinheiro em sua conta, maninha.
	Isso  o que uma pessoa razovel faria. Mas este no  o caso de Evelyn, ou Jessie. Como j lhe disse, ambas so imprevisveis.
	 o que parece.
	Voc ainda tem alguma dvida?
	No  Lianne respondeu, com um suspiro. Levantando-se, trocou de camiseta e calou um par de tnis. Olhando para si, perguntou:  Acha que esse jeans est muito velho, maninha?
	No sei  Anabelle respondeu, desanimada.  E no sei, tambm por que voc no me consultou antes de entrar em contato nossas primas.
	Fiquei com medo que voc dissesse no  Lianne confessou, embaraada.
Anabelle sentiu-se prestes a explodir. Ser que estava pedindo muito, perguntou-se, exasperada.
S queria sua rotina de volta! Queria reassumir o controle sobre o ritmo do trabalho e de sua vida pessoal... E, sobretudo, a segurana de saber o que aconteceria no dia seguinte. Nada de surpresas, nada de solavancos... Tudo muito bem planejado e de acordo com a sensatez que sempre a caracterizara.
	Tente relaxar, maninha  Lianne recomendou.  Voc est muito nervosa e isso no ajudar em nada.
	Sbias palavras  Anabelle resmungou.  Vocs, jovens, tm a incrvel capacidade de dizer verdades absolutas, embora cometam as atitudes mais absurdas do mundo.
	Vocs, jovens...  Lianne repetiu, arremedando-a.  At parece que voc  muito velha.
	Ora, pare de dizer tolices e venha me ajudar a receber nossas primas. O pobre Adam est l na sala, com elas. E no sei at quando poder resistir.
O pobre Adam, ao contrrio do que Anabelle imaginava, j havia cativado ambas as senhoras, que o fitavam como se ele fosse um guru.
Sentadas no sof, lado a lado, as duas senhoras olhavam para o rapaz, embevecidas.
	Oh, Adam Garret, voc  simplesmente maravilhoso!
	E possui uma sabedoria incrvel para sua pouca idade.
	Eu deveria ter adivinhado  Anabelle murmurou, para que s Lianne a ouvisse.  Adam Garret  capaz de derreter
o corao de uma esttua de pedra.
Concordando com um gesto de cabea, Lianne mirou ambas as primas de cima a baixo e levou a mo  boca, para no rir.
	Minha nossa! Elas so realmente... exticas.
	Eu no disse?
Na verdade, a palavra exticas parecia ideal para definir Evelyn e Jessie Buchanan.
Evelyn, a mais velha, era uma senhora magra, de estatura mdia, longos cabelos ruivos e olhos negros. Os traos delicados indicavam que tinha sido bela, na juventude. Alis, ainda era. Aparentava menos idade do que os sessenta anos que possua e vestia-se de maneira nada tradicional: saia longa de crepe amarelo e uma bata branca, cingida por uma faixa do mesmo tecido e cor do vestido. Nos ps, delicadas sapatilhas brancas e, no pescoo, um colar de metal, representando o Deus-Sol, dos antigos astecas.
J Jessie, cinco anos mais nova, era bem diferente da irm. Baixa, de compleio robusta, tinha cabelos curtos e crespos, tingidos de um tom castanho-escuro. Usando uma cala larga, verde-esmeralda, boina da mesma cor, blusa de seda caqui e botinhas de feltro marrom, a extica senhora lembrava um duende dos contos de fadas.
Ambas fitavam Adam com venerao. Muito  vontade em seu jeans e camisa azul-clara, de mangas arregaadas, ele ocupava o centro das atenes com verdadeira serenidade.
Tomando o brao da irm, Anabelle conduziu-a pelo corredor, em direo  cozinha. Ambas passaram despercebidas.
	No vamos falar com as primas?  Lianne perguntou.
	Sim, mas podemos preparar-lhes um lanche, primeiro. O que acha?
	Tem razo.
Minutos depois, ambas entravam na sala, levando duas bandejas. Uma continha um bule de ch de camomila e xcaras. Na outra havia torradas, biscoitos, manteiga e gelia.
	Ora!  Evelyn exclamou, encantada.  No era preciso incomodar-se, Anabelle querida.  Observando Lianne com ateno, exclamou:  Puxa, voc se transformou numa bela mocinha, tal como sua irm. Olhe s para ela, Jessie...
No  prpria imagem da candura e da pureza?
Lianne levou a mo  boca, por um motivo que Anabelle percebeu muito bem: controlar o riso.
Nos ltimos anos Anabelle enviara, ocasionalmente, fotos dela e de Lianne para ambas as primas.
	Muito bem, modelo de candura...  Anabelle disse 
irm  vamos recepcionar nossas convidadas.  Comeou a servir o ch.
	Adam, querido, elas no so divinamente encantadoras?  Jessie comentou, piscando-lhe um olho.
	Oh, sem dvida que sim.
	E voc j se decidiu por alguma?
	Jessie!  Evelyn repreendeu a irm, enquanto Anabelle corava violentamente.  Esse  o tipo de pergunta que no se deve fazer.
	Ora, eu sou uma pessoa espontnea  Jessie se defendeu, enquanto agradecia com um gesto de cabea os biscoitos que Lianne lhe oferecia.  Costumo dizer o que penso e sinto, ao contrrio de muitas pessoas, que so artificiais.
	Ser natural no significa, necessariamente, portar-se com indiscrio  Evelyn sentenciou. Em seguida, olhando
para Adam, disse:  Engraado... Voc me faz pensar na letra A.
	Como assim?  ele indagou, com um sorriso, enquanto recebia de Anabelle sua xcara de ch.
Em vez de responder, Evelyn voltou-se para a irm.
	Voc no v uma letra A quando olha para ele, Jessie querida?
	Sinceramente...  Jessie fitou-o com extrema ateno, antes de declarar:  No.
	Jura?
	Juro, Evelyn.  Jessie sorveu um gole de ch.  Puxa, est delicioso.
	Obrigada  Anabelle agradeceu o elogio, sentando-se numa poltrona.
	Voc no vai tomar ch, querida?  Jessie perguntou.
	No, obrigada.
	Oh, teve esse trabalho todo s para ns...
	No foi trabalho algum e sim um prazer  Anabelle afirmou, num tom amvel. No fundo, estimava as primas que, apesar de excntricas, pareciam ter bons sentimentos. Se elas viessem visit-la numa poca menos atribulada... seria bem melhor.
	O ch ficou bom, mesmo  disse Lianne, que havia se servido de uma xcara e acabava de se sentar numa cadeira, ao lado de Anabelle.
Adam, que ocupava a poltrona em frente a de Anabelle, secundou:
	De fato, est muito saboroso.
	Obrigada  Anabelle agradeceu, com um suspiro.
"Coragem", pareciam dizer os olhos verdes de Adam, ao fit-la com intensidade... Ou seria apenas impresso, Anabelle perguntou-se.
	Voc no v um A na aura dele?  A voz de Evelyn interrompeu-lhe os pensamentos.
	Como disse?  Anabelle indagou, piscando os olhos.
	Uma letra A  Evelyn explicou.  Para mim  to ntida! Voc consegue perceb-la, querida?
	Onde?
	Bem ali...  Evelyn apontou um ponto, acerca de dois dedos acima da cabea de Adam.  Na aura... Percebe?
	No  Anabelle respondeu, num tom amvel.
	Ah, que pena!  Evelyn tomou alguns goles de ch, com uma expresso pensativa. Ento voltou-se para Lianne.
	No vejo nada, prima  disse a garota, antes que Evelyn formulasse a pergunta.
	Ento, essa revelao foi dada apenas a mim  Evelyn concluiu, com ar misterioso.  Mas o que significar essa letra...?
	Talvez seja A, de Adam  Jessie opinou.  O que acha?
Evelyn meneou a cabea, em sinal de desaprovao.
	No creio que seja isso. Deve haver algo mais.  De sbito estalou os dedos, como se enfim encontrasse a resposta para aquele mistrio.  J sei! Voc deve ser do signo de Aries, certo?
	Claro!  Jessie sorriu, radiante.  Aries comea com A.
	Mas sou de Peixes  Adam esclareceu, causando um sentimento de frustrao em ambas.
	Ento, esse A deve referir-se ao seu local de nascimento  Evelyn sentenciou, aps refletir por mais alguns instantes.  Voc nasceu no Estado do Arizona... Ou na cidade de Atlanta, talvez? -
	No. Sou daqui de Collier Bay, mesmo.
	Oh, agora sim, descobri! Esse A  a inicial de sua profisso. Voc  advogado?
	No.
	Agrnomo?
	No.
	Astrlogo?
Adam riu:
	Tambm no. Sou fotgrafo.
	Bem, eu acabarei encontrando a resposta, mais cedo ou mais tarde.  Evelyn depositou a xcara de ch sobre a mesinha de centro. Em seguida serviu-se de uma torrada com gelia.  No  mesmo, Jessie?
	Oh, naturalmente que sim  a outra concordou, enftica. Olhando de Adam para Anabelle, e depois para Lian-
ne, anunciou:  Sabem, Evelyn tem o dom.
	Que dom?  Lianne perguntou.
	Da viso, querida.
	Ora, todos ns temos  Lianne retrucou, sem entender.
	Ela est se referindo a um dom paranormal, maninha Anabelle explicou.
	E verdade  Evelyn confirmou, num tom modesto.	Sinto-me privilegiada por isso, embora ache que no merea tanto...
	Mas de que jeito esse... dom se manifesta?  Lianne quis saber, ignorando o gesto de Anabelle, que apertava-lhe levemente o brao, recomendando-lhe que no levasse o assunto adiante.  Vocs sabem explicar?
	Claro  Jessie respondeu.  Evelyn v as coisas, mesmo as que no esto aparentemente visveis, entende?
	Mas se no esto visveis, como ela pode ver?
	Pelos olhos do esprito, meu bem  Evelyn explicou, com um sorriso. Em seguida acrescentou:  Sua irm Anabelle no acredita muito nisso...
	Tenho minhas prprias convices, a respeito da vida e do mundo  Anabelle justificou-se, num tom delicado.  Mas no me atrevo a dizer que elas sejam as nicas verdadeiras. Afinal, cada um deve acreditar no que lhe parecer
apropriado, no acham?
	Isso  verdade  ambas concordaram.  O importante  levarmos nossa vida do melhor jeito possvel, tratando de fazer nossa parte para melhorar o mundo.
	Agora voc falou uma coisa muito certa, prima Lianne aprovou, com seu jeito espontneo de ser.  Independente da religio, das convices sociais, intelectuais ou polticas, o que importa  vivermos bem, de corao limpo e conscincia tranquila.
	A sabedoria fala pela boca dessa criana!  Evelyn exclamou, impressionada.
	Ouvi isso de meu ex-professor de Harmonia  Lianne explicou.  Ele fala coisas lindas, sabe? E, a propsito, eu no sou uma criana e sim uma mulher de dezessete anos.
Diante daquela afirmao veemente, Anabelle no pde deixar de sorrir.
	Ainda faltam alguns anos para que voc se torne, de fato, uma mulher  disse Adam.
	Ah, no me venha com suas manias de irmo mais velho!  Lianne protestou.  Detesto que me tratem como criana.
Mas Adam contraps:
	Entre a criana e a mulher existem trs fases, mocinha:
a puberdade, a adolescncia e a juventude. Voc est no final da adolescncia, que por sinal  uma poca muito bonita... Uma poca em que se deve preparar o futuro, sabe E acho que  isso mesmo que voc far, quando for entr na Escola Juilliard.
	J lhe disse um milho de vezes que no irei para l  Lianne reagiu, irritada.
	E eu insistirei dois milhes de vezes para que voc v  Adam retrucou.
	Assim  que se fala, Adam  Anabelle aprovou.       
	Mas o que esto fazendo?  Evelyn interveio, espantada.  Querem obrigar essa adorvel criana a ir para uma escola que ela no deseja frequentar?
Anabelle suspirou, contrariada. Por um instante, havia se esquecido das primas... O assunto Juilliard estava se tornando to desgastante, que ela perdia o controle sempre que o abordava.
	Na verdade Lianne sonha em entrar na Escola Juilliard de Bellas-Artes, desde que era criana  disse Anabelle. E corrigiu-se em seguida.  Ou melhor: desde que comeou a estudar piano.
	Ah, ento a Juilliard  uma escola de Bellas-Artes  Evelyn concluiu.  Nunca ouvi falar dela.
	Porque voc  muito distrada  Jessie comentou, em tom de censura.  A Juilliard formou os maiores pianistas desse pas.  Voltando-se para Anabelle, indagou:  Ela fica em Nova York, no  mesmo?
	Exato  Anabelle confirmou. Lanando um olhar severo para Lianne, acrescentou:  Minha adorvel irm-cabea-dura mandou o currculo para l e foi aceita.
	E agora, que est prestes a realizar o sonho que aca
lenta h vrios anos, quer desistir  disse Adam.  Eu e Anabelle estamos tentando mostrar-lhe o quanto essa ideia  absurda, mas ainda no conseguimos convenc-la.
	Parem com isso, vocs dois  Lianne ordenou, irritada.
 Tenho meus motivos para tomar essa atitude e pronto!
	E que motivos seriam esses, querida?  Evelyn perguntou, com sincero interesse.
"Por favor, no lhes diga nada a respeito de nossa situao", Anabelle pediu, em pensamento, enquanto fitava a irm com uma expresso de splica... Em vo.
Sem a menor cerimnia, Lianne anunciou, de um s flego:
	Estamos  beira da falncia, primas. Em s conscincia, no posso deixar minha irm com essa bomba nas mos e seguir, tranquilamente, para uma das escolas mais caras deste pas. Por mais que eu deseje me formar pianista, jamais me darei ao luxo de ser to egosta.
Um pesado silncio caiu no ambiente. Anabelle sentia vontade de chorar. Adam fitava-a como se lhe perguntasse o que deveria fazer, para ajud-la.
Mas Anabelle sabia que ningum poderia auxili-la, naquele momento em que seu orgulho estava profundamente ferido. Pela primeira vez em seus vinte e quatro anos de vida, sentia-se desnudada diante das primas, de Adam e de Lianne. Pela primeira vez no sabia o que dizer, ou como agir. S queria sua vida anterior de volta. Queria responder apenas a si mesma, novamente.
	A voz da sabedoria realmente fala pela boca dessa criana  Evelyn sentenciou.
	Voc j disse isso, meu bem  Jessie comentou.
	E direi novamente, quantas vezes forem necessrias.
 Num tom dramtico, Evelyn acrescentou:  Vocs compreendem a grandeza de alma da nossa caulinha? Ela  capaz de abrir mo da carreira com a qual sempre sonhou, para auxiliar a irm! Isso no  fantstico?
	Claro que sim  Anabelle concordou, com amarga ironia.   muito nobre da parte dela, mas... desnecessrio.
	Por qu, meu bem?  Jessie perguntou.
	Porque no ser com a presena de Lianne que resolverei os problemas da loja. Ao contrrio: o fato de saber que ela poderia estar cursando uma boa escola, em vez de se sacrificar por um questionvel senso de famlia e solidariedade...
	Por que questionvel?  Lianne a interrompeu.
	Porque h certos sacrifcios que, apesar de nobres, no servem para resolver os problemas. Preciso de paz e tranquilidade, para pagar as dvidas da Wedding Bells. O melhor jeito de conseguir isso  trabalhando  minha maneira, sem muita interferncia. Fui clara?
Agora sim, Anabelle sabia que tinha ofendido a irm. Mas no lhe restava outra alternativa.
	Voc sabe ser cruel, quando quer  Lianne reclamou, ofendida.
	Sinto muito se lhe pareo assim, mas no vejo outra maneira de convenc-la a desistir desse sacrifcio absurdo, que no far bem a nenhuma de ns.
	Voc se sacrificou, quando nossos pais morreram. Desistiu de cursar a Faculdade de Letras para cuidar de nossa casa e de mim. Por que quer me impedir de fazer o mesmo?
	Porque j no  preciso, maninha. Por favor, tente entender meu ponto de vista... Se voc desistir da Juilliard, todo o meu sacrifcio ter sido em vo.
E ambas ficaram se olhando, talvez compreendendo em silncio o que nenhuma palavra poderia explicar.
Por um longo momento, ningum ousou dizer nada. Por fim, Adam, numa tentativa de aliviar o clima, perguntou a Jessie:
	Vocs vieram da Califrnia, no?
	Isso mesmo.
	De Los Angeles, para ser mais exata  Evelyn esclareceu.
	Certo. E quanto tempo pretendem ficar aqui?
A pergunta fez com que Anabelle e Lianne prestassem ateno  conversa.
	Ainda no sabemos  disse Evelyn.
	Quer dizer que no tm um planejamento a respeito de sua estada em Collier Bay?  Adam insistiu, depois de trocar um olhar com Anabelle, que parecia prestes a ter um colapso.
	Bem, creio que no iremos embora, enquanto no resolvermos esse problema  Jessie declarou.
	Que problema?  Anabelle perguntou, com a voz tremula de tenso.
	Ora, estou me referindo  sua situao, querida  Jessie explicou.  Ficaremos aqui durante o tempo em que voc e Lianne precisarem de ns.
	Sabe, Adam....  Evelyn interveio  ns bem que quisemos vir para c, quando Allison e Jackson partiram deste mundo. Mas a prpria Anabelle foi contra a ideia. 
	Achei que eu e Lianne poderamos passar sozinhas, por aquela fase difcil  Anabelle explicou.
	E Adam nos ajudou muito  disse Lianne.  Ele  como um irmo para ns, sabem?
Anabelle concordou com um gesto de cabea. De fato, Adam sempre fora o amigo de todas as horas. E se ela sentia algo alm da amizade... Bem, no poderia culp-lo por isso.
	Quando Lianne nos informou sobre a crise financeira que elas esto atravessando...  Evelyn dirigia-se a Adam 	no tivemos dvidas sobre o que fazer. Vir para c foi o primeiro passo. Agora, esperemos que as foras positivas do universo nos iluminem e nos dem nimo para superar as dificuldades.
Olhando de uma para a outra, Anabelle agradeceu:
	Sei que vocs so bem-intencionadas e fico-lhes muito grata. Mas no precisam se incomodar conosco. Afinal, ns sempre resolvemos nossos prprios problemas e...
	Mas no estamos duvidando da capacidade de vocs 	Evelyn a interrompeu.  Apenas, queremos ajudar.
	A unio faz a fora, meu bem  Jessie citou o velho ditado.
	E verdade  Evelyn aprovou.
"Pobre Anabelle", Adam pensou, penalizado. "Dessa vez voc est encurralada, no , querida?"
Como se lhe adivinhasse os pensamentos, ela o olhou com uma expresso de splica, como se lhe pedisse socorro.
Adam sentiu vontade de tom-la nos braos e consol-la. Mas o que poderia fazer, de concreto, para tir-la daquela enrascada? Sabia muito bem que Anabelle acabaria sofrendo um esgotamento nervoso, se convivesse por muito tempo com Evelyn e Jessie. As duas senhoras de fato possuam uma bondade natural. Mas sua excentricidade ultrapassava os limites da sensatez.
"Salve-me", parecia implorar Anabelle,  beira de um ataque de nervos.
"O que posso fazer," Adam se perguntava, inquieto, tentando raciocinar rpido.
	Se ao menos houvesse algum que cuidasse delas  disse Evelyn, tocando-lhe o brao.  No concorda, Adam?
	Como?  ele indagou, piscando os olhos.  Desculpe, eu estava distrado.
E Jessie explicou:
	Minha irm est dizendo que se Anabelle e Lianne tivessem algum... Um pai, um irmo, um marido, talvez., no se sentiriam to desamparadas.
Uma ideia formou-se na mente de Adam, com a rapidez de um raio. E ele perguntou:
	Quer dizer que se Anabelle ou Lianne fossem casadas...
	Lianne  jovem demais para isso  Evelyn opinou.
 Mas Anabelle...
	Se ela tivesse um marido, vocs no precisariam se preocupar, certo?  Adam completou.
	Certssimo!  Jessie sorriu.  Um homem que soubesse cuidar dela e de Lianne muito bem, que lhe adivinhasse os mais secretos desejos, que a amasse com a venerao de um poeta contemplando sua estrela da sorte...
	Nesse caso, vocs duas poderiam voltar para casa e cuidar de seus afazeres...
	Isso mesmo  ambas responderam, quase ao mesmo tempo.
Voltando-se para Anabelle, Adam indagou num tom suave:  Ento, por que j no contou a elas, querida?
	Contou... o qu?  Anabelle perguntou, sem entender.
	Que somos noivos.
	Noivos!  exclamaram as duas senhoras.
	Sim  Adam respondeu, num tom sereno.  Agradecemos sua solidariedade e empenho, mas podemos resolver nossos problemas sozinhos.
	Adam!  Lianne e Anabelle ergueram-se de um salto.
Ele sorriu:
	Minha querida noiva... minha futura cunhada... por que tanto espanto? Ns teramos de comunicar o noivado  famlia, mais cedo ou mais tarde. E acho que esta foi a melhor ocasio para faz-lo.
Beijando galantemente a mo de ambas as senhoras, ele se despediu:
	E agora peo-lhes licena, pois preciso cuidar de meus afazeres. Boa noite, foi um prazer conhec-las.
	O prazer foi nosso, Adam querido  Evelyn afirmou, num tom amvel.
	Voc ser um timo marido para nossa menina  disse Jessie.
	Espero que sim.  E Adam fitou Anabelle, que parecia perplexa. Sorrindo, despediu-se:  At logo, querida... At logo, Lianne. No  preciso me acompanhar at a porta.  E saiu, a passos largos.
	Descobri o significado da letra A!  Ele ainda ouviu Evelyn exclamar, triunfante.   A de Apaixonado!
	A de Anabelle!  Jessie secundou.  A de Amor!

CAPITULO VII

Recostado em sua poltrona favorita, Adam refletia sobre a atitude que havia acabado de tomar. Numa situao de emergncia, era preciso pensar rpido... Mas teria agido certo, ele se perguntava, assaltado por uma srie de dvidas.
Depois de colocar uma fita no vdeo, Adam serviu-se de um copo de vinho branco, gelado, e sentou-se para assistir a O Indomvel  Assim  minha vida.
Apesar de j t-lo visto antes, Adam no pde deixar de rir e tambm de se emocionar com o filme, que prendeu-lhe a ateno at o final. Estava rebobinando a fita, quando a campainha soou.
Depositando o copo de vinho sobre uma mesinha de canto, ele foi atender  porta. Passava das onze horas da noite e Adam tinha um palpite a respeito de quem seria...
	Anabelle  ele constatou, abrindo a porta.  Entre.
	Sei que a hora  imprpria para  ela justificou-se, embaraada.  Mas s agora consegui escapar de Evelyn e Jessie. Deixei Lianne fazendo-lhes companhia e vim conversar com voc.
Adam assentiu com um gesto de cabea e conduziu-a at a sala.
	Sente-se  convidou, apontando o sof.
	Obrigada  Anabelle agradeceu, acomodando-se.  Faz tanto tempo, desde a ltima vez que estive aqui  comentou, olhando ao redor.  Mas sua casa continua igualzinha ao que era antes.
	Exceto por alguns mveis, que meus pais levaram quando foram para o Arizona. Mas meu fiel caseiro continua mantendo tudo limpo e em ordem.
	E verdade. Eu costumo v-lo com frequncia, cuidando do jardim ou fazendo pequenos consertos na casa. A propsito, onde est ele?
	Tirou alguns dias de frias, como sempre faz, quando volto para c.  Interrompendo-se, ele observou Anabelle com ateno. Ela estava tensa, disso no restava dvida.
Portanto, talvez fosse melhor ajud-la a abordar o assunto que a trouxera at ali.
"Mas, antes, uma bebida, para aliviar o clima", ele decidiu, em pensamento.
	Que tal um copo de vinho?  ofereceu.
	No, obrigada.
	Prefere um caf, ou um suco, talvez?
	Agradeo, mas no quero nada.
	Certo  Adam assentiu. E de sbito comentou: Bem, aposto que voc no veio at aqui para falar sobre meu caseiro...
	E verdade  ela concordou, constrangida.  Mas no sei por onde comear...
	Que tal pelo comeo?  ele props, rindo.
Mas Anabelle estava sria, ao indagar:
	Por que fez aquilo, Adam?
	Achei que uma mentira inocente poderia livr-la daquela situao difcil. Se suas primas pensarem que voc  minha noiva, no tero motivo para continuar aqui em Collier Bay. E me parece que  exatamente isso que voc quer, certo?
	Sim, mas...  Anabelle interrompeu-se. Estava confusa e no conseguia raciocinar com clareza.  Bem, no creio que sua ideia tenha sido to brilhante assim. Voc viu a reao de Lianne? Ela ficou to feliz!
	S consegui prestar ateno s suas primas, que tambm comemoraram a notcia com sincera alegria.
	Ainda esto comemorando, alis Anabelle comentou, com um suspiro.  Gosto delas, mas no conseguiria t-las como hspedes por muito tempo. Somos to... diferentes.
	Ento, pense nas vantagens de nossa pequena farsa: Evelyn e Jessie ficaro tranquilas a seu respeito. E Lianne enfim far a matrcula na Escola Juilliard, julgando que voc, como minha noiva, j no ficar to desamparada. Anabelle fitou-o com espanto.
	Ento foi por isso? Voc mentiu no apenas para acabar com a preocupao de minhas primas, mas tambm para evitar que Lianne cometesse uma grande tolice, abrindo mo do curso na Escola Juilliard?
Adam no respondeu. E Anabelle insistiu:
	Foi por isso?
Mas Adam continuava em silncio, como se imerso em profundos pensamentos. De sbito, props:
	Vamos l para fora. A noite est linda e ficaremos mais confortveis no deque, ou nas cadeiras ao redor da piscina.
Anabelle estremeceu. Tinha jurado a si mesma que jamais pisaria na casa de Adam novamente... E no cumprira a promessa. Mas a deciso de no mais retornar ao deque, onde vivera a noite mais feliz e ao mesmo tempo mais frustrante de sua vida... continuava em p. Quanto a isso, ela no pretendia voltar atrs.
	Por favor  Adam pediu.  H algo que preciso lhe falar.
	E no pode ser aqui?
	L ser melhor... L, onde nossa amizade um dia se partiu.
"Ser como retornar  cena do crime", Anabelle pensou, amargamente, seguindo Adam em direo ao quintal dos fundos, onde ficava a piscina e, para alm dela, o pomar.
A noite, de fato, estava magnfica. A lua minguante j ia alta no cu pontilhado de estrelas. Uma brisa fresca soprava, trazendo o cheiro da maresia, mesclado ao perfume das rvores do pomar.
Recusando o convite para sentar-se no deque, Anabelle acomodou-se numa cadeira de madeira laqueada. Tensa, esperou que Adam falasse. Mas ele apenas sentou-se a seu lado e ficou em silncio, como se imerso em profundos pensamentos.
Anabelle sentiu de novo aquela emoo incmoda, que sempre a assaltava quando estava prxima de Adam: um misto de euforia e ansiedade, que causava-lhe falta de ar e uma forte acelerao dos batimentos cardacos.
Ali estava ela, de novo,  merc de seu amor sem esperanas.
	Por favor, fale de uma vez, Adam.
	Em primeiro lugar, gostaria de dizer que meus motivos para mentir no foram to nobres assim
	Como?
	Para ser franco, no pensei em Lianne, nem na tranquilidade de suas primas.
	Ento, por que mentiu?
	Porque vi voc to frgil, to desamparada, que me comovi. Tentei pensar, rpido, numa sada. E essa foi a nica que me ocorreu.  Inclinando-se na direo de Anabelle, finalizou:  Em outras palavras, s menti por causa de voc e de mais ningum.
	Bem, eu agradeo sua boa vontade, mas...
	Espere, por favor  ele a interrompeu.  Eu ainda no terminei.
Anabelle obedeceu e ele prosseguiu:
	Pedi-lhe para vir at aqui porque desejo acabar, de uma vez por todas, com os mal-entendidos entre ns. Afinal, ramos to amigos... E daquela noite para c voc tem me evitado ostensivamente.
	Voc j me disse isso, no dia em que chegou. Mas as coisas no so bem assim...  Ela tentou mentir, sem sucesso algum.
	No diga que estou enganado, Anabelle, porque no conseguiria me convencer. Afinal, faz mais de cinco anos que aquilo aconteceu. E tive tempo de sobra para confirmar o que sinto: voc me rejeita, desde aquela noite. Gostaria que parasse de fazer isso... Que se lembrasse de que somos e sempre seremos amigos.
Anabelle no respondeu. Ouvir aquela declarao de amizade doa-lhe mais do que todas as palavras ofensivas que Adam poderia dizer.
"O que fazer", ela se perguntou, com amargura, como j fizera tantas vezes. E j sabia a resposta: podia apenas aceitar a amizade de Adam, quando na verdade desejava muito mais...
	Fale alguma coisa, por favor  ele pediu, ansioso, longe de supor os pensamentos de Anabelle. No fundo, no era to indiferente a ela quanto afirmava. Mas, por outro lado, sabia que no tinha o direito de iniciar uma relao fortuita com Anabelle. Faria isso com qualquer outra mulher, exceto com ela.
	O que posso dizer?  Anabelle murmurou. Evitando os olhos de Adam, tentou mentir pela segunda vez, naquela noite.  Eu era muito jovem, quando aquilo aconteceu entre ns. Deixei-me levar pela emoo do momento, pelo champanhe, pelo feitio do luar... E agradeo a voc por ter me impedido de cometer uma tolice ainda maior.
	Quer dizer que no ficou magoada comigo?  Adam indagou, surpreso.
	De modo algum  Anabelle respondeu, com uma convico que estava longe de possuir. Ela, que sempre fora uma pssima mentirosa, acabava de pronunciar sua terceira mentira.  Alis, se no fosse por voc, eu jamais teria conhecido Steve Richardson.
Adam franziu o cenho.
	Mas o que Steve tem a ver com tudo isso?  indagou, confuso.  Vocs no terminaram?
	Sim, mas ele me ensinou algo muito importante.
	Duvido que Steve Richardson, com seu egosmo e arrogncia, seja capaz de ensinar qualquer coisa a algum  Adam resmungou, aborrecido.
	Ele tem seu lado bom  Anabelle argumentou.
	E mesmo?  Adam retrucou, incrdulo.  Gostaria de saber qual  esse lado. Mas no estamos aqui para dis
cutir Steve Richardson. Portanto, peo-lhe que me conte apenas qual foi a preciosa lio que ele lhe ensinou.
	Bem, com Steve eu consegui compreender o que desejo, realmente.
	No diga!  Adam reagiu, surpreso, embora tentasse parecer apenas sarcstico.  E o qu, exatamente, voc deseja, Anabelle Simmons?
	Segurana e estabilidade...  ela declarou, sem hesitar.  Sobretudo, a certeza de que o futuro ser de acordo com os planos do presente, desde que se trabalhe muito para isso.
	E Steve lhe proporcionava todas essas maravilhas?  Adam indagou, irnico.
	Sim  Anabelle afirmou, dessa vez sem mentir. Era verdade que, em contrapartida, os beijos de Steve nunca a haviam levado ao paraso, como uma vez Adam fizera. Alis, Steve nunca fora muito carinhoso. Era verdade, tambm, que ela jamais passara muito tempo pensando em como deveria se vestir para agradar Steve, ou no que ele diria a respeito de seu novo penteado... Essas coisas que qualquer mulher apaixonada costumava fazer.
	Estabilidade e segurana  Adam repetiu, interrompendo-lhe os pensamentos.  No duvido que Steve lhe desse tudo isso. Era um modo dele compensar a chatice, egosmo e petulncia que sempre o caracterizaram.
Anabelle fez meno de levantar-se, encerrando assim a conversa. Mas Adam impediu-a com um gesto.
	Por favor, fique. Desculpe-me pelo que disse a respeito de seu ex-noivo. Eu... sinto muito.
Na verdade, Adam no sentia tanto assim. Tinha mais uma srie de adjetivos, nada louvveis, para definir Steve Richardson. E s se calava por respeito a Anabelle.
	Posso fazer uma pergunta?
	Depende  ela respondeu, num tom severo.
	Seu corao ainda pulsa por Steve Richardson?
	Isso  muito relativo  Anabelle afirmou, aps refletir por alguns instantes. Os sentimentos no so tudo numa relao, sabe?
	No?  Adam indagou, no tom mais casual que conseguiu.
	No  ela confirmou, com um suspiro.  H outras coisas que contam.
	Como por exemplo?  Afinidades, modos de pensar, pontos de vista sobre a forma como a vida deve ser levada...
	Entendo..  Tomado por uma onda de alegria, Adam concluiu, em silncio: "Ela no ama Steve Richardson".
Mas por que isso o deixava to eufrico, perguntou-se, em seguida.
Talvez por saber que Steve jamais a faria feliz, pensou. E negou-se a vasculhar seu corao,  procura de outros motivos, talvez bem mais profundos...
Voc aceitaria Steve de volta?  indagou, aps alguns instantes.
: Creio que no  Anabelle respondeu, com tristeza.  Ele me desrespeitou muito, sabe?
Adam assentiu com um gesto de cabea, antes de perguntar:
	Mas voc ainda pretende se casar?
	Sim, desde que seja com o homem certo.
	E qual seria o homem certo, Anabelle Simmons?
	Algum que se parecesse com Steve... com seu modo estvel de ser.
	Acha que vocs se dariam bem?
	Claro que sim. J lhe disse que pontos de vista semelhantes contam muito numa relao.
	E quanto  intimidade, Anabelle?  Adam ousou indagar, sabendo que estava indo longe demais.
Enrubescendo violentamente, ela o fitou com uma expresso chocada:
	Est se referindo a... sexo?
	Sim. Afinal, voc  uma mulher jovem, bonita e saudvel. No sente necessidade de se relacionar com algum que a satisfaa nesse aspecto?
	O sexo no tem sentido algum, quando desvinculado da paixo  Anabelle sentenciou, indignada.
	Mas voc acabou de dizer que no era exatamente apaixonada por Steve  Adam argumentou.
	Ora!  Ela ergueu-se, furiosa.  Voc est fazendo jogo com as palavras, Adam Garret. Est me encurralando, obrigando-me a dizer coisas que no quero.
	Perdoe-me, novamente  ele se desculpou.  No foi minha inteno embara-la. Eu apenas tive curiosidade de saber se voc, que  uma mulher to bonita, no sentiria necessidade de... uma relao casual.
	No sou uma pessoa casual, Adam Garret  ela retrucou, entre os dentes.
	Esta  uma das qualidades que mais admiro em voc, Anabelle Simmons.  E a fitava com intensidade.  Quanto ao nosso noivado de mentira, acho que foi, afinal, uma boa ideia. Lianne partir tranquila para a Escola Juilliard, Evelyn e Jessie retornaro a Los Angeles e a vida retomar ao seu curso.
	Tem razo.
	Anabelle...  Adam tomou-lhe a mo entre as suas, causando-lhe um calafrio de puro prazer.
	Sim?  ela indagou, num fio de voz.
	Prometa que nunca mais rejeitar minha amizade ou meu apoio. Diga que no mais me evitar ostensivamente, como tem feito nos ltimos anos.
	Est bem, Adam  aquiesceu, com o corao acelerado.
	Obrigado  ele agradeceu, comovido. E sorriu, ao acrescentar:  Amigos?
	AmigosAnabelle repetiu, com um suspiro. Retirando a mo com um gesto delicado, mas firme, anunciou:  Agora preciso ir. Est tarde e devo acordar cedo, amanh.
	Eu a acompanharei at sua casa.
	Oh, no se incomode!
	Imagine se eu deixaria minha adorvel noiva sair so zinha, a esta hora da noite?  gracejou.
Mas Anabelle no sentia vontade de rir. Ao contrrio: as lgrimas ameaavam inundar-lhe os olhos.
"Que loucura", ela pensava, deixando-se conduzir por Adam at sua casa. "Meu noivo , na verdade, meu melhor amigo, embora eu o deseje como companheiro por toda a vida..."
	Bem, aqui estamos  disse Adam, parando diante do porto da casa de Anabelle.  Tenha uma boa noite e procure descansar.
	Tentarei fazer isso...  ela respondeu, com um suspiro 	se for possvel.
Adam compreendeu de imediato o que Anabelle queria dizer. Bastava olhar para a janela do primeiro andar da casa, cujas luzes estavam acesas, para concluir o que acontecia l dentro.
	Elas continuam comemorando nosso noivado  ele concluiu.
	Exatamente.
	Bem, diga-lhes que est cansada e precisa repousar 	Adam recomendou.
	 o que farei. Espero que Lianne j tenha arrumado a sute de hspedes para as primas.
	Ei, pessoal!  A voz de Evelyn soou alegremente, quebrando o silncio da noite. Ali esto nossos pombinhos!
Adam e Anabelle voltaram-se na direo da voz, a tempo de ver Evelyn afastar-se do peitoril da janela da sala.
	E melhor ir eu embora  disse Adam.
	Sim, faa isso, antes que as primas tenham a brilhante ideia de juntar-se a ns.
Mas era tarde demais. A porta da casa se abriu, dando passagem a Evelyn e Jessie, seguidas por Lianne. Entre exclamaes de alegria e votos de felicidade, as duas senhoras aproximaram-se dos noivos.
	Vocs nem imaginam sobre o que estvamos conversando  Jessie anunciou, radiante.
	J planejamos tudo  Evelyn declarou, no mesmo tom.  A festa ser no prximo sbado.
	Que festa?  Adam e Anabelle indagaram, ao mesmo tempo.
	Ora, a festa do noivado!  Evelyn respondeu.
	Faremos uma comemorao em grande estilo  Jessie secundou. E voltou-se para Anabelle.  Naturalmente, voc no ter de se preocupar com nada. Tudo correr por nossa conta.
	Lianne nos contou que voc anda muito atarefada com a loja. Portanto, continue trabalhando, como se nada estivesse acontecendo. A festa de noivado ser um presente nosso para vocs, que merecem toda a felicidade do mundo.
Anabelle estava atnita. E teve de apoiar-se no brao de Adam, com medo de que o choque a fizesse perder os sentidos.
	Vocs no dizem nada, queridos?  Jessie perguntou.
 No gostaram de nossa ideia?
	Claro que sim  Lianne interveio.  Olhem s para eles, primas. Esto mudos de alegria.
	Bem, se  assim...  Jessie sorriu, aliviada.
	Eles adoraram a ideia, isso eu posso garantir  Lianne replicou.  Mas agora, acho que devemos deix-los a ss, para que se despegam adequadamente. Vocs... entendem o que quero dizer, no?
	Lgico  ambas aquiesceram.
	Bem, vamos voltar para dentro e deixar nossos pombinhos mais  vontade  disse Evelyn, j se afastando.
	Isso mesmo  assim dizendo, Jessie acompanhou-a, de volta  casa.
A ss com Adam e Anabelle, Lianne olhou de um para o outro, com ar inocente:
	Ei, no pensem que tenho alguma culpa, nisso tudo. Vocs sabem como so as primas... resolveram fazer uma festa de noivado e nada no mundo as demover dessa ideia.
	Ao menos voc no precisava mostrar-se to eufrica, a respeito  Anabelle a repreendeu.
	Ora, o que h, maninha?  Lianne indagou, naquele tom veemente usava nas discusses de ambas.  Por que ficou to aborrecida?
	No gosto de festas  Anabelle resmungou.
	Santo Deus!  Lianne exclamou, com ar exageradamente dramtico.  Voc  uma promotora de eventos! E a proprietria da maior loja de cerimnias da regio! E ainda tem coragem de dizer que detesta festas?!
	No se trata disso  Anabelle explicou, rspida.  A questo  que ando muito cansada e sem tempo para planejar...
	Mas voc no ter de se preocupar com nada, maninha  Lianne a interrompeu, num tom mais brando.  No ouviu o que as primas disseram? Tudo correr por conta delas. Ah, por falar em contas, elas me deram isto.  E estendeu-lhe um cheque.
	Do que se trata?  Anabelle indagou, intrigada. E no pde conter uma exclamao de espanto, quando Lianne mencionou o valor do cheque.  Mas isso  absurdo! Eu no posso aceitar.
	Ento, tente devolv-lo. Eu j gastei todos os meus argumentos ao explicar s primas que voc  orgulhosa demais para receber ajuda, mesmo num momento to difcil.
	No se trata de orgulho  Anabelle defendeu-se.
	Ora, no me venha com essa, maninha. Eu a conheo muito bem. E sugiro que aceite este auxlio. Se saldarmos as
dvidas, em breve a Wedding Bells estaria com as finanas em ordem. E ento poderemos devolver o emprstimo s primas.
	A propsito, eu ia mesmo lhe falar sobre isso, Anabelle 	Adam interveio.  Hoje  noite, quando Lianne me contou sobre a situao da Wedding Bells, pensei em oferecer-lhe algum dinheiro.
	Esquea  Anabelle respondeu, sem hesitar.  Oh, Deus, ser que ningum compreende que no preciso de caridade e sim de um pouco de paz? S quero retomar minha rotina normal e cuidar de meus prprios problemas.
	s vezes, saber aceitar a ajuda que nos oferecem  uma clara demonstrao de sabedoria  Adam sentenciou.
	Assim  que se fala, cunhado  Lianne aprovou, satisfeita. E voltou-se para a irm.  Deposite o cheque em
sua conta, maninha. Sei que Jessie e Evelyn nos fizeram esse emprstimo de corao.
	Eu no duvido disso, mas...
	Acho que sua irm tem razo  Adam interveio.  Mas se voc realmente no quiser a ajuda das primas... aceite a minha.
	J disse que no.  Anabelle estava to desgastada, que sentia-se prestes a chorar.
	Est bem  Adam contemporizou, num tom suave. 	Conheo-a o suficiente para saber que no adianta discutir com voc. Trate de descansar, Anabelle.
	Certo  ela assentiu, ansiosa para ficar sozinha e refletir sobre os ltimos acontecimentos, que fugiam-lhe do controle.  Boa noite, Adam.
	Boa noite.
	Vamos, entrar, Lianne?
	Eu j vou, maninha.  E Anabelle afastou-se em direo  casa.
A ss com Lianne, Adam despediu-se:
	Bem, boa noite para voc tambm.
	Voc... est muito cansado?
	Sim.  Ele sorriu.  O dia hoje foi exaustivo.
	 verdade. Mas gostaria de lhe falar sobre um assunto...
	No pode deixar para outra hora?
	Infelizmente, no.
	Ento, diga do que se trata.
	Certo.  Lianne ficou em silncio por alguns instantes, como se escolhesse bem as palavras para o que tinha a declarar. Ento, disse de um s flego:  Eu sei o que voc e minha irm esto fazendo.
	Sim?  Adam no se alterou.  E o qu, exatamente, estamos fazendo?
	Fingindo-se de noivos, s para que eu fique tranquila a respeito de Anabelle e, assim, v para a Escola Juilliard de Bellas-Artes.
Adam baixou os olhos. E Lianne sorriu:
	Obrigada por no tentar me convencer de que estou enganada.
	E eu poderia fazer isso?
	Claro que no  Lianne respondeu, meneando a cabea.  Afinal, sei muito bem que minha irm nunca teria coragem de desposar voc.
	Oh, muito obrigado. Suponho que casar-se comigo seja uma provao insuportvel.
Lianne riu.
	No foi isso que eu quis dizer. Voc  uma pessoa maravilhosa, Adam Garret.  Num tom confidencial, acrescentou:  Sabe, se eu estivesse no lugar de Anabelle, certamente me apaixonaria por voc.
	E mesmo?  Adam indagou, em tom de gracejo.
	Apenas, eu no sou Anabelle...  Lianne ficou pensativa por alguns instantes. Ento prosseguiu.  Ela  to tradicional, no? Quer a segurana de um lar estvel, a certeza de que um dia ser igual ao outro... essas coisas, compreende?  Sim.
	E qualquer pessoa, por mais estpida que fosse, veria que voc no  o tipo de homem que Anabelle deseja... Ou ao menos pensa desejar.
	Como?
	Ora, voc no  como Steve. E, c entre ns, acho isso timo.
Adam riu.
	Lianne, voc s vezes me surpreende.
	Obrigada. Mas no estou lhe dizendo tudo isso apenas para receber um elogio.
	Naturalmente. Alis, gostaria de saber aonde voc pretende chegar.
	Ao seguinte ponto... Vocs dois esto tentando me ajudar e por isso lhes serei eternamente grata. Mas no quero que Anabelle saiba que eu sei.
	Como?  Adam indagou, confuso.  Essa parte eu no entendi.

	Se Anabelle souber que estou a par de tudo, ficar muito preocupada e insegura. E voc sabe o quanto ela se desgasta, quando se sente assim... No consegue trabalhar direito e acaba metendo os ps pelas mos. Assim, quero que Anabelle pense que eu realmente partirei, muito tranquila, para a Escola Juilliard. O fato de no ter de se preocupar comigo lhe tirar um grande peso das costas.
	Espere um momento...  Adam estava intrigado.  Voc quer dizer que est pronta a partir para a Escola Juilliard, mesmo sabendo que meu noivado com Anabelle  uma farsa?
	De certa forma, sim.
	O que voc entende por de certa forma?
	Bem, eu talvez v para a Juilliard, com uma condio.
	Qual?
	A de que vocs continuem fingindo que so noivos. Assim, poderei continuar fingindo que acredito no noivado de vocs.
	Oh, Deus, voc consegue me deixar ainda mais confuso, Lianne!  Adam se queixou, exasperado.  Por que no tenta ser mais clara?
	Farei isso, se voc prometer que no dir nada a Anabelle sobre esta conversa.
	Est prometido.
	E que continuar com a farsa.
	Cero, Lianne  ele cedeu.  Mas agora sou eu quem exigir uma condio.
	Qual?
	A de que, at o final da prxima semana, voc confirme a matrcula na Escola Juilliard.
	Est bem  ela prometeu.
	Agora tente me explicar, com muita calma, essa histria de fingir que acredita no nosso noivado, como voc mesma disse.
	Oh, eu adoraria, mas tenho de entrar!
	Por que esta sbita pressa?  ele indagou, surpreso.
	Porque Anabelle pode estar me esperando.
	Mas...
	Sinto muito, cunhado.  Lianne afastou-se em direo  casa.  Ns conversaremos numa outra hora, est bem?
	Mas...
	Boa noite, Adam  ela se despediu, j abrindo a porta.
	Essa eu juro que no entendi  ele murmurou, intrigado, enquanto voltava para casa.
	E ento?  Jessie e Evelyn indagaram ao mesmo tempo, assim que Lianne entrou na sala.
	Onde est Anabelle?
	J se retirou para o quarto  Evelyn respondeu.  Pode falar sem medo, querida.
Lianne olhou de uma para a outra, antes de anunciar:
	Bem, tal como eu pensava, Adam est louco por ela.
Evelyn e Jessie reagiram com alegria  notcia.
	Vocs deveriam ver o modo como Adam reagiu, quando eu falei que Anabelle jamais o desposaria, pois ele no era o tipo de homem ideal para ela.
	Ento, Adam a ama, de verdade  Evelyn concluiu, sem muita surpresa.  De minha parte, no duvidei disso nem por um moments.
	Eu tambm no, mas quando Lianne nos disse que o noivado poderia ser uma farsa, fiquei confusa. Por isso achei melhor confirmar...
	E eu tive a confirmao, primas!  Lianne exclamou, tomando a mo de ambas.  Adam ama Anabelle, com toda a certeza!
	E ela o ama tambm...  disse Jessie.  Certo?
	Disso eu sei h muito tempo  Lianne respondeu.  Mas achei que no havia esperanas, sabe?
	Como assim?
	Ora, eu no sabia que Adam era apaixonado por ela. S percebi isso hoje, quando notei o modo como ele a olhava. E agora, que confirmamos o fato, vamos pr mos  obra.
	Voc fala muito bem, querida  Evelyn elogiou-a.
	E age ainda melhor  Jessie secundou.  Mas continuamos com um srio problema...
	Qual?  Lianne perguntou.
	Adam no sabe que est louco por Anabelle.
	 verdade  Lianne concordou, com um suspiro.  Por outro lado, Anabelle  orgulhosa demais para admitir o que sente por ele.
	Bem, o que faremos, ento?  Evelyn perguntou.
	Devo abordar Anabelle da mesma forma que fiz com Adam, para ver de que modo ela reagir?
	No creio que esse recurso funcionaria com sua irm  Jessie opinou.  Ela  bem diferente de Adam... Sabe
como esconder seus sentimentos, inclusive de si mesma.
	Tem razo  Lianne concordou.  Bem, o que vocs sugerem?
	No momento, ainda no sei que atitude deveremos tomar  Jessie confessou.
	Mas pensaremos numa sada  Evelyn declarou, com firmeza.  Sabe, Lianne querida, eu geralmente no gosto
de interferir no destino das pessoas. Mas, neste caso, abrirei uma exceo.
	As foras positivas do universo nos apoiaro...  Jessie sentenciou, pensativa.  Afinal, nossas intenes so as
melhores do mundo.
	Sim.  Lianne abraou ambas.  Vocs me parecem duas mulheres lindas e um tanto malucas, sabem? Estou feliz por t-las comigo, neste momento.
	Ora, ns  que nos sentimos honradas por estarmos aqui  Evelyn afirmou, emocionada.
	A propsito, Anabelle aceitou o cheque  Lianne informou-as.  Ela bem que tentou recusar, mas fui implacvel. E, com a ajuda de Adam, consegui que cedesse. Obrigada, primas.
	Ela j nos agradeceu, ainda h pouco, antes de ir para o quarto  disse Jessie.
	Bem, mas no vamos falar de dinheiro  Evelyn props.  Devemos colocar a mente para funcionar, meninas.
Precisamos ajudar Anabelle e Adam a se encontrar.
	Ora, eles se encontram quase todos os dias  disse Lianne.
	Estou falando do encontro maior, querida, do momento em que as almas se tocam, graas  fora sublime do amor.

CAPITULO VIII

Este anel pertenceu a minha bisav materna. Ela o deu a minha av, que por sua vez presenteou minha me. Como sou filho nico, ganhei-o de mame para oferec-lo  mulher que conquistasse meu corao."
Assim havia falado Adam, dias atrs, ao dar-lhe aquele anel cravejado de rubis, que Anabelle agora fazia girar no dedo anular.
A princpio, ela recusara-se a aceitar o presente. Com amargura, argumentara:
"Mas no conquistei seu corao, Adam Garret."
"De certa forma, sim  ele retrucara."
O que, exatamente, significaria a expresso de certa forma, para Adam Garret, ela se perguntava agora.
Mas no tinha tempo de cogitar sobre o assunto, pois a todo momento era assediada por convidados, que vinham parabeniz-la pelo noivado.
A festa, tal como Evelyn e Jessie haviam idealizado, tornara-se enfim realidade.
A casa de Adam fora escolhida para o evento, j que era bem mais espaosa do que a de Anabelle.
Grupos de convidados espalhavam-se por toda parte: na sala, no jardim da frente e, sobretudo, nos fundos da propriedade, ao redor da piscina, onde vrias mesas haviam sido dispostas.
Anabelle tinha passado a semana inteira mergulhada no trabalho, e tambm pagando as dvidas, graas ao emprstimo de Jessie e Evelyn.
Sentia-se como se estivesse fora da realidade, vivendo uma fantasia que nem sequer fora idealizada por ela...
Agora, seu noivado com Adam Garret era um fato consumado. E a maioria dos habitantes da cidade sabia disso, graas  farta distribuio de convites que Lianne fizera.
Entre os presentes, no se encontravam apenas os amigos mais prximos, mas todos os conhecidos de Adam, Anabelle e Lianne... at o mais distantes.
Usando um vestido, longo, azul-claro, confeccionado em crepe indiano, Anabelle estava mais bela do que nunca. Era isso que Adam pensava, ao observ-la durante a festa. Os cabelos presos num coque solto, sobre a nuca, a pouca ma-quiagem no rosto de traos perfeitos, a leveza do vestido que valorizava-lhe as1 formas do corpo escultural... Definitivamente, ela jamais estivera to encantadora.
Tambm ele vestia-se de maneira adequada para a ocasio, embora num estilo que fugia ao convencional. Propositadamente, havia evitado o traje black-tie, preferindo um blazer cor de marfim, combinando com a camisa azul-ma-rinho e cala da mesma cor.
Aos trinta anos, Adam sabia que era um homem atraente. Mas nunca ligara muito para a prpria beleza. Agora, no entanto, experimentava uma sensao de orgulho ao ver que chamava a ateno dos convidados, com sua presena marcante.
E Anabelle, o que estaria pensando a seu respeito, ele se perguntou, pegando duas taas de champanhe da bandeja de um garom que passava.
Anabelle estava sentada numa cadeira, prxima  porta da sala, deixada aberta para que os convidados entrassem. Adam no tardou a encontr-la.
	E ento...  perguntou, oferecendo-lhe uma taa.  Como vai a noiva mais encantadora de Colher Bay?
	Ora...  Anabelle enrubesceu violentamente e, baixando os olhos, sorveu um gole da bebida espumante.
	Voc est linda  disse Adam, deliciado.  E fica ainda mais fascinante quando cora, como uma adolescente.
	Cuidado, Adam Garret  ela o advertiu, num tom zombeteiro, numa tentativa de ocultar o embarao que a dominava.  Voc est levando seu papel muito a srio.
	E por que no deveria?  ele indagou, com um sorriso devastador.
	Porque estamos representando, lembra-se?
	Oh,  mesmo!  ele assentiu, disfarando a decepo que as palavras de Anabelle lhe causavam.   que s vezes parecemos to reais...  Levando a taa aos lbios, num gesto elegante, provou o champanhe.  Hum... est delicioso. Suas primas acabaram promovendo uma festa e tanto.
	Com a ajuda de Lianne, que passou a semana inteira trabalhando nos preparativos.
	Eu, no seu lugar, teria cuidado com elas.
	Por qu?
	Porque podem se tornar srias concorrentes, se entrarem para o ramo de promoo de eventos.  E Adam riu, exibindo dentes perfeitos como prolas.
"Como  que ele consegue ter tanto senso de humor, numa situao como essa", Anabelle se perguntou, com uma ponta de angstia.
Para ela, era um grande sacrifcio fingir-se de noiva do homem a quem amava verdadeiramente.
	Voc no vai dizer nada sobre o meu traje?  Adam interrompeu-lhe os pensamentos.  Acha que estou elegante? Ou deveria ter optado pelo tradicional black-tie?
	Voc est lindo, Adam Garret  Anabelle respondeu, com um suspiro.  E sabe disso muito bem... por que pergunta?
A chegada de novos convidados interrompeu a conversa de ambos. Adam afastou-se com alguns deles, conduzindo-os at a borda da piscina, para que se acomodassem a uma mesa. Anabelle permaneceu no mesmo lugar. Tinha decidido ficar ali, recebendo os convidados que chegavam.
Collier Bay inteira parecia ter sido convidada para a festa, Anabelle pensava, um tanto aturdida devido ao intenso movimento a sua volta.
Por volta de dez horas da noite, a festa havia atingido seu pice. Mas Anabelle, que jamais fora uma pessoa de hbitos noturnos, demonstrava alguns sinais de cansao. Apesar do burburinho ao redor, ela j havia cochilado por duas vezes.
	At quando a festa vai durar?  perguntou, discretamente, a Lianne, que tinha vindo lhe trazer alguns canaps.
	At quando o ltimo convidado partir, maninha.
	Mas isso poder demorar horas para acontecer...  Anabelle queixou-se, desanimada.
	Suponho que sim.  Lianne tomou-a pela mo, fazendo-a levantar-se.  Agora pare de reclamar e tente parecer mais animada.
	Por qu?
	Porque chegou a hora de cortar o bolo e fazer um discurso.
	Oh, no!  Anabelle protestou, horrorizada.  Tenho verdadeiro pavor de improvisar... Ficarei muda, pode apostar nisso.
	No se preocupe.  Adam aproximou-se, tomando-a pelo brao.  Deixe o discurso por minha conta, est bem?
	Voc  nosso heri, Adam Garret!  Lianne exclamou, em tom de gracejo.  Viu s, maninha? O valente cavaleiro Garret acaba de livr-la de mais uma enrascada.
	E sua corajosa irm caula, a grande Lianne, vai cuidar para que tudo corra bem, na hora de cortar o bolo  disse Adam.
Anabelle olhou de um para o outro... Depois, observou as primas, que convidavam todos a aproximar-se da mesa, para o grande momento.
	As vezes penso que, tendo vocs todos como amigos, eu talvez no precisasse de inimigos  disse Anabelle.
Lianne e Adam riram, divertidos.
	Est vendo s, cunhado? Minha adorvel irm no perdeu o senso de humor. Isso significa que ela sobreviver a mais esta provao.
	A vm os noivos!  gritou algum.
	Chegou a hora de cortar o bolo e fazer um brinde!  Adam at a mesa onde um bolo branco, munu SiU11	, _.
tacava-se no centro.
Ela, que tantas festas j havia promovido, estava como que num palco, desempenhando um papel que no pedira, ansiosa por escapar daquela situao.
Cortar o bolo, erguer a taa de champanhe num brinde, ouvir o breve discurso do noivo... Anabelle conhecia muito bem essas formalidades. Mas sentia-se como se jamais houvesse visto uma festa de noivado. No sabia como agir, ou pensar. Estava confusa e daria tudo para recolher-se  tranquilidade e solido de sua sute, onde as coisas tinham um gosto prprio... um gosto de realidade.
Por volta de onze horas, os convidados comearam a se despedir.
Anabelle no saberia dizer quantas mos havia apertado, quantas vezes agradecera os votos de felicidade que as pessoas lhe desejavam...
Sentada numa cadeira prxima ao deque da piscina, ela tentava no pensar nas recordaes que aquele lugar lhe trazia. Recordaes proibidas, que deveriam permanecer para sempre no passado.
Por um momento, Anabelle fechou os olhos, ansiosa por um pouco de paz de esprito... A estava algo que ela no desfrutava h muito tempo.
Quando fora a ltima vez em que se sentira tranquila, equilibrada, confiante no futuro? Anabelle j no saberia dizer.
Desde algumas semanas atrs, sua vida parecia ter se transformado num verdadeiro redemoinho, arrastando-a para um lugar que ela no conhecia, e que por isso mesmo a assustava.
A sequncia dos acontecimentos a esgotara: as dvidas, a insegurana, o rompimento com Steve... E, depois, a insistncia de Lianne em ajud-la, sua precipitao ao chamar as primas...
Interrompendo o fluxo de pensamentos, Anabelle repreendeu-se. No tinha direito de reclamar de Evelyn e Jessie. Ambas, alm de bondosas, haviam lhe emprestado um borr dinheiro, suficiente para colocar os negcios em dia. Disso Anabelle jamais se esqueceria.
Mas tampouco poderia ignorar a agitao que as duas primas causavam, onde quer que estivessem. E Lianne, surpreendentemente, estava se dando muito bem com elas!
Tanto melhor, Anabelle pensou. Adorava Lianne e estimava as duas primas. O problema era a convivncia... nada alm disso.
Nos ltimos dias, sua casa parecia ter sido assaltada por um vendaval, tamanha era a agitao e euforia das trs.
Mas agora tudo se acalmaria, Anabelle disse para si, procurando relaxar. Evelyn e Jessie voltariam para casa. Lianne partiria para a Escola Juilliard de Bellas-Artes, no final do vero. E ela poderia enfim retomar sua rotina normal... Se  que sua vida voltaria ao normal, depois de tanta agitao!
Anabelle suspirou. Sabia, de antemo, que sentiria falta daquelas trs... E tambm de Adam, quando ele partisse.
Mas para que cogitar sobre o futuro, Anabelle pensou, quando o presente j era to intenso?
	Se ao menos eu pudesse descansar um pouquinho  murmurou, acomodando-se melhor na cadeira.  S um pouquinho...
As plpebras lhe pesavam terrivelmente. O cansao a dominava, roubando-lhe a vontade prpria.
	Anabelle...  disse uma voz masculina, que parecia vir de muito longe.  Anabelle, voc est bem?
Ela abriu os olhos devagar, ansiosa para voltar ao seu descanso, quele tnue osis que havia conseguido, em meio ao movimento intenso. Mas, no instante seguinte, Anabelle j estava totalmente desperta.
	Voc!  exclamou, espantada, piscando os olhos com fora, como se julgasse estar sonhando.  O que est fazendo aqui?
A sua frente estava Steve Richardson, fitando-a com um misto de curiosidade e admirao.
	Voc est maravilhosa  disse, tomando-lhe a mo, num cumprimento galante.  Se me permite a franqueza, devo dizer que nunca percebi que voc era to bela. Nem mesmo quando namorvamos.
O comentrio, de pssimo gosto, aborreceu Anabelle. Mas, por outro lado, ela sentiu-se surpresa. Aquela era a primeira vez que Steve Richardson dava-se ao luxo de ser sincero e espontneo. E isso era espantoso.
	Vim para desejar-lhe felicidades  disse Steve, num tom polido. Baixando a voz, acrescentou:  Voc... no demorou muito para encontrar outra pessoa.
	Creio que voc no tem direito de me cobrar isto.  Anabelle levantou-se, encarando-o com ar de desafio.
Steve fitou-a com espanto, por alguns instantes. Em seguida acenou a cabea, em sinal de entendimento:
	Ah, agora compreendo a que voc se refere. Espero que no tenha dado muita importncia quela notcia de jornal. Voc sabe como so os colunistas sociais, que por sinal tm o pssimo costume de exagerar tudo.
	Tem razo.
	E foi exatamente isso que Effie Sand, a colunista do Dirio de Collier Bay, fez.
	Creio que sim, Steve.  Cruzando os braos, Anabelle fitou-o com seriedade.  No gosto de Effie Sand, ou melhor, do modo que ela escreve sua coluna. Mas no creio, tampouco, que ela costume inventar notcias.
	De fato...  Steve, muito elegante em seu terno marrom-caf, ficou pensativo por alguns momentos.  Bem, sejamos francos  disse, por fim.  Aquela moa com quem Effie Sand me viu, num restaurante...
	Voc no precisa me dar satisfaes  Anabelle o interrompeu.  Afinal, j no ramos noivos, quando voc e ela foram vistos juntos, naquele restaurante. Voc... s a conheceu depois de romper comigo, no foi?
	No  Steve confessou.
	Como?
Ele olhou ao redor, como a certificar-se de que ningum mais poderia ouvi-lo, a no ser Anabelle. Mas havia mesmo poucas pessoas, por ali. E nenhuma delas parecia interessada na conversa de ambos.
	O nome dela  Leillah. Eu a conheci pouco depois de ficarmos noivos, Anabelle.
	E apaixonou-se por ela?  Anabelle indagou, perplexa.
Steve sorriu. Mas, para Anabelle, aquilo no era um sorriso genuno... apenas um esgar, um repuxo de msculos, desprovido de alegria.
	Voc me conhece... Sabe que no sou homem de me apaixonar por ningum. Os sentimentos podem atrapalhar muito, se no forem comandados pela razo.
Anabelle fitou-o, horrorizada. E ele prosseguiu:
	Leillah no  to bonita quanto voc, nem to inteligente. Mas creio que ela seja mais... digamos... adequada para mim. Voc sabe que pretendo seguir sempre mais longe, em minha carreira poltica. E para tanto preciso de uma mulher conveniente.
Anabelle estava sem fala. Era difcil acreditar que algum dia pensara em se casar com aquele homem frio e calculista.
	Voc era quase perfeita para o papel de esposa  ele continuou, longe de supor a indignao de Anabelle.  Mas tinha um defeito.
	Qual?  ela indagou, num fio de voz.
	Era inteligente demais. E muito personal, tambm. Preciso de algum a meu lado que no me conteste nunca, que me apoie incondicionalmente. Num barco existem o capito e seu assistente, no  mesmo?
	E voc  o capito  disse Anabelle.
	Exato.
	Ento, por que no contrata um assistente?
	Anabelle...  ele fitou-a com ar superior  ser que no percebeu que estou falando numa linguagem simblica?
Que quando digo assistente, estou me referindo  mulher com quem me casarei?
	Percebi, sim, Steve Richardson  ela respondeu, tomada por uma estranha calma.  Alis, percebi muitas outras coisas...
	Quais?
	Uma delas  que voc me fez um imenso favor, ao romper nosso noivado. E por falar em noivado, gostaria de saber o que voc faz aqui, nesta festa.
	Recebi o convite pelo correio. E achei que seria muito indelicado de minha parte no comparecer.  Continuando a trat-la com aquela superioridade, que antes Anabelle confundira com segurana, ele comentou:  Voc me parece um pouco nervosa. Por isso no ficarei ofendido com suas palavras speras, est bem?
Naquele momento Lianne aproximou-se e, com sua espontaneidade habitual, disse:
	Ah, vejo que seu ex-noivo veio cumpriment-la, maninha.
	Sim  Steve respondeu, num tom polido.  Eu estava justamente dizendo a Anabelle que recebi o convite pelo correio.
	Oh, claro, fui eu que mandei  Lianne respondeu, ignorando o olhar furioso de Anabelle.  Queria que voc visse o quanto minha irm est feliz, apesar de tudo  afirmou, num tom ferino.  Fique  vontade, Steve Richardson.  Fez meno de afastar-se.
	Creio que ele j est de sada  disse Anabelle, segurando-a pelo brao.  E voc far a delicadeza de con duzi-lo at a porta, certo, maninha?
	Eu mesmo o acompanharei.  disse Adam, que se aproximava, num tom firme e decidido.
	Oh, como vai, Adam Garret?  Steve saudou-o, ignorando a tenso que havia provocado.  Seja bem-vindo a nossa cidade.
Recusando a mo que Steve lhe oferecia, Adam fitou-o no-fundo dos olhos.
	Se no me engano, ouvi minha noiva dizer que voc j estava de sada.
- Steve olhou para Anabelle, depois para Lianne e por fim para Adam, como se avaliasse a situao. A hostilidade era quase palpvel, no ar. E ele se decidiu:
	De fato, tenho um compromisso. S passei para desejar-lhes felicidades.
	Recado recebido  disse Adam.  E agora, se no se importa...
	Naturalmente  Steve aquiesceu, acompanhando-o em direo  sada.
	Voc enlouqueceu?  Anabelle repreendeu Lianne, quando ambas ficaram a ss.
S queria que Steve visse o quanto voc e Adam esto felizes  Lianne justificou-se. - Ele a magoou, no foi? E merecia uma lio.
	Pois saiba que voc quase causou um incidente desagradvel, com sua atitude. Nem mesmo a excntrica Celeste Costello teria uma ideia to absurda!
	Oh, est bem, me desculpe. Eu no queria aborrec-la, maninha. Minhas intenes foram as melhores possveis.
	Estou ficando cada vez mais assustada com suas boas intenes  disse Anabelle, num tom de tristeza e cansao.
	Perdo.  Lianne desculpou-se novamente, mas Anabelle no respondeu.  Devo ajoelhar-me no cho, para conseguir clemncia?
	Ora, pare com isso, sim?  Anabelle beijou-a em ambas as faces.  Estou muito cansada e meu humor fica pssimo, nessas horas.
	No se preocupe, h poucos convidados, agora. Logo voc poder ir para casa dormir, est bem?
	Certo.  Anabelle sorriu, voltando a sentar-se. Ao ver Adam aproximar-se, a passos largos, sentiu-se invadida por uma sensao de alvio. Era sempre assim, quando Adam aparecia... Ele era como um vento soprando em meio ao calor inclemente, ou uma luz brilhando na escurido.  Ol, Adam. Espero que Steve no tenha lhe dado muito trabalho. Sente-se um pouco.  Apontou a cadeira ao lado.
Ignorando o convite, Adam indagou:
	Ser que podemos conversar?
	Claro.  Anabelle repetiu:  Sente-se.
	 particular  ele afirmou, num tom seco.
	Certo, j entendi que estou sobrando, aqui  disse Lianne, afastando-se.
	O que aconteceu?  Anabelle perguntou, preocupada.  Voc parece nervoso.
	Pareo, no  ele a corrigiu, rspido.  Estou.
	Mas por qu?
	Prefiro falar disso no meu escritrio, se voc no se importa.
O escritrio de Adam ficava no andar trreo da casa e Anabelle sabia disso.
	Acha que ser correto deixarmos os convidados sozinhos?
	Lianne cuidar deles.  Foi a resposta mal-humorada de Adam, que caminhou em direo  casa.
Anabelle o seguiu, com o corao aos saltos. Quando por fim ambos entraram no escritrio, ela indagou, com voz trmula:
	Por favor, diga de uma vez o que houve. Estou comeando a ficar realmente assustada. Eu nunca o vi assim, Adam...
	De fato, eu raramente perco o controle.  Ele caminhava de um lado a outro do escritrio, como uma fera enjaulada.  Em geral, sou um homem cordato e calmo. Mas detesto que abusem de minha pacincia.
	Adam, quer ser mais claro, por favor?
	Est bem.  Ele parou diante de Anabelle, com uma expresso de acusao.  Serei simples e direto, como sempre...
	Fale de uma vez.
	No gostei de voc ter convidado Steve Richardson para vir aqui. Considero isso como uma grande ofensa, para se dizer o mnimo.
	Ah!  Anabelle respirou, aliviada.   por isso que est to nervoso?  E antes que Adam respondesse, esclareceu:  Eu no o convidei.
	No?  Adam repetiu, incrdulo.  Quer me convencer de que ele estava passando pela rua e por iniciativa prpria resolveu entrar para saber o que estava acontecendo?!
	Claro que no. Foi Lianne quem enviou-lhe o convite.
Ela queria que Steve me visse bem, j recuperada da mgoa que ele me causou, h to pouco tempo.
Adam voltou a andar de um lado a outro do escritrio, como se ainda duvidasse da veracidade daquelas palavras. Anabelle ento prosseguiu com as explicaes:
	Sei que isso foi pura criancice da parte de Lianne.
Alis, j a repreendi por isso, embora saiba que ela no fez por mal.  Aps uma pausa, pediu:  Por favor, na fique aborrecido com Lianne.
	No tenho motivo algum para tanto.
	timo.  Anabelle sorriu.
	Meu problema, no momento,  com voc, Anabelle Simmons.
	Eu?  ela reagiu, espantada.
	Sim.  Fitando-a com ar de acusao, questionou-a:  O que voc diria se uma ex-noiva minha aparecesse por aqui, hoje... E se eu a tratasse com deferncia e delicadeza, como voc fez com Steve? O que faria, hein, Anabelle Simmons?
	Adam, eu no o estou reconhecendo. Voc nunca foi to grosseiro.
	E voc nunca me desrespeitou desse jeito, antes  ele retrucou, elevando a voz.
	Ora, pare com essa cena idiota!  Anabelle perdeu a pacincia.  Eu no fui excessivamente delicada ou solcita com Steve. Ao contrrio: disse-lhe umas boas verdades. Inclusive, cheguei a agradec-lo por ter rompido nosso noivado. Assim, fiquei a salvo de cometer o maior erro de minha vida.
A expresso de Adam suavizou-se ligeiramente.
	Voc... falou isso a ele?
	Sim. E percebi que a suposta segurana de Steve era, na verdade, uma frieza que chega a me causar repulsa agora. Ele jamais me daria a estabilidade de que tanto necessito.  egosta e interesseiro demais para tanto.
Um sorriso iluminou o rosto de Adam.
	Quer dizer que voc agora tem certeza de que seria um grande erro casar-se com Steve Richardson?
	Exato  Anabelle respondeu, um tanto confusa. Ficou em silncio por alguns instantes e ento confessou: Ainda no entendi por que voc ficou to indignado, ao me ver conversando com Steve.
	Nem eu  Adam murmurou, como se para si.
	O que disse?
	Oh, nada  ele respondeu, passando a mo pelos cabelos castanhos, com uma expresso to confusa quanto a de Anabelle.  Escute, por que voc no volta para a festa? Os convidados podem estar sentindo sua falta.
	Eu lhe disse isso ainda h pouco e voc respondeu que Lianne cuidaria deles.

	Foi mesmo? Bem, acho que eu estava distrado.
Anabelle caminhou at a porta e fitou-o com estranheza.
	Decididamente, no estou entendendo voc, Adam Garret. At um minuto atrs, voc parecia to nervoso... E de repente ficou to calmo!
Aproximando-se, Adam sorriu.
	Estou apenas cansado, s isso. Por favor, desculpe-me por ter sido grosseiro com voc.
	Est desculpado  Anabelle respondeu, bastante con fusa, antes de sair.
Sozinho, Adam deixou-se cair numa poltrona, com o rosto escondido entre as mos.
Havia acontecido, afinal. Por mais que relutasse em admitir, aquela era a pura verdade: estava apaixonado por Anabelle e nada no mundo poderia modificar esse fato.
O cime que sentira, ao v-la conversando com o ex-noivo, fora incontrolvel. Por um momento, ele pensara que fosse perd-la para Steve Richardson...
	Oh, Anabelle Simmons...  ele disse, baixinho.  Estou amando voc. A realidade impregnou-se de nossa fantasia.
E agora, o que fazer? Essa pergunta atormentou Adam Garret at muito depois do final da festa, quando os primeiros pssaros cantavam na copa das rvores, saudando um novo dia.

CAPITULO IX

Sra. Costello, por favor, procure se acalmar  Anabelle recomendou.  Caso contrrio, no conseguir nos explicar o que aconteceu.
	Fale, sra. Costello  disse Lianne, que acabava de voltar da cozinha, onde fora buscar um copo de gua. Oferecendo-o  mulher, recomendou:  Tome a gua em pequenos goles. Isso a ajudar a sentir-se melhor.
Fazia poucos minutos que Celeste Costello havia chegado, num estado de nervos de causar pena.
Anabelle, que tinha dormido pouco naquela noite, j que a festa fora at bem tarde, estava exausta. Se pudesse, voltaria para a cama naquele mesmo instante, deixando a pobre Celeste Costello aos cuidados de Lianne e das primas. Mas, em s conscincia, Anabelle jamais teria coragem de fazer isso. Pois, excntrica ou no, ela era sua cliente. E, como tal, merecia todo o respeito.
	Agora que voc est mais calma, explique-nos o que houve  disse Evelyn, que ainda usava sua camisola de dormir.
Eram sete e meia da manh.
	Vou ajud-la a relaxar um pouco.  E Jessie, tomando o copo j vazio das mos de Celeste Costello, colocou-o sobre a mesinha de centro. Contornando a poltrona onde a mulher estava sentada, comeou a massagear-lhe os ombros, com movimentos constantes e circulares.  Sente-se melhor?
	Um pouco  Celeste Costello respondeu. Voltando-se para Anabelle, indagou:  Como foi sua festa de noivado ontem, querida?
	Oh, correu tudo bem, senhora.
	Perdoe-me por no ter vindo.  que tnhamos um jantar em famlia, sabe? Os pais de Gustav, noivo de minha filha Maria, nos convidaram para...  Interrompendo-se, Celeste gemeu de dor.
	No massageie to forte, prima  Lianne recomendou a Jessie.
	Eu s estou tentando ajudar nossa amiga Celeste, querida.
De fato, nos ltimos dias, Anabelle percebera que uma forte simpatia unia Jessie e Evelyn a Celeste.
	Continue, por favor  Lianne pediu.  A senhora estava nos contando o motivo de seu nervosismo...
	Ela ainda ia comear a nos contar, querida  Evelyn corrigiu-a. Sorrindo para Celeste, acrescentou:  No  mesmo?
	Sim.  Celeste voltou a tremer, como se assaltada por uma nova crise de nervos. Fitando Anabelle com uma expresso desesperada, disse:  Oh, meu bem, voc nem imagina o que aconteceu!
	Por favor, fale de uma vez, senhora  Anabelle pediu, contendo a impacincia.
	Uma grande tragdia! Uma lamentvel, imensa tragdia!
	Pelo amor de Deus, sra. Costello  Anabelle exclamou,  beira da exasperao.  Diga logo o que aconteceu, antes que eu tenha uma crise!
	Ela se foi  Celeste anunciou, escondendo o rosto entre as mos.
	Ela... quem?
	Maria... se foi... para sempre.
	Oh, no!  Anabelle exclamou, empalidecendo.  Aconteceu algum acidente com Maria? Mas isso no pode ser!
	No houve acidente algum, querida  Celeste explicou, ainda com o rosto oculto entre as mos.  Ela se foi...
	Foi para onde?  Anabelle quase gritou.
	Fugiu  disse Evelyn.
	Fugiu?  Anabelle repetiu, atnita.  Ento voc j sabia disso, prima?
	No  Evelyn explicou.  Apenas, minha intuio me diz que foi isso que ocorreu.
	Exatamente  Celeste confirmou, num tom dramtico. 	E agora no vai mais haver casamento.
	Mas  claro que vai, sra. Costello  Anabelle afirmou, com veemncia.  E natural que as noivas se sintam desgastadas, nas semanas que antecedem o casamento. A cor reria com os preparativos, o medo de que algo saia errado... Enfim, todas essas preocupaes acabam levando as moas a uma espcie de esgotamento.
	Mas nem todas chegam a fugir, certo, maninha?  Lianne interveio.
Lanando-lhe um olhar de censura, Anabelle continuou a consolar Celeste.
	Aposto que Maria voltar logo. Ela talvez esteja precisando ficar sozinha, para refletir sobre a grande mudana que ocorrer em sua vida, dentro de muito breve. Afinal, ela vai se casar e...
	No vai  Celeste apartou, com voz trmula.
	Ora, como pode ter tanta certeza?  Anabelle argumentou, num tom amvel, ansiosa por confort-la.  Compreendo que a senhora, como me, esteja muito nervosa.
Isso tambm  natural. Mas sua filha no tardar a aparecer, acredite.
Meneando a cabea, Celeste abriu a bolsa e retirou uma folha de papel.
	Veja voc mesma, querida.  Entregou-o a Anabelle.
	O que  isso?  Anabelle perguntou, apreensiva.
	Um bilhete de despedida,  claro  Evelyn afirmou.
	Espero que sua intuio tenha falhado desta vez, prima 	disse Anabelle, desdobrando a folha, que continha uma mensagem simples e direta.
	Leia em voz alta  Lianne pediu.
	O esprito da discrdia baixou sobre nossa famlia, ,que at ontem era to feliz  Celeste Costello sentenciou, num tom dramtico.  Ah, vocs precisavam ver o pobre Gustav... est inconsolvel. E os pais dele, ento? Pensar que jantamos todos juntos, num clima de paz e harmonia...
	"Mame"...  Anabelle comeou a ler o bilhete  "por favor, no me condene pelo que estou fazendo. Achei que seria feliz, com Gustav. Mas ontem tivemos uma discusso sria, que rompeu o elo de amor que nos unia. Assim, decidi cancelar o casamento. Desculpe-me por essa atitude drstica, mas compreenda que estou desesperada, necessitando de um pouco de solido, para refletir sobre o passo que acabo de dar. Pea tambm desculpas a Anabelle, por mim; diga-lhe que pagarei as despesas, apesar de saber que meu casamento com Gustav jamais se realizar. Com amor, Maria."
	Ela fugiu mesmo, Evelyn  disse Jessie, pesarosa.
	Infelizmente, esta  a pura verdade  Anabelle murmurou, penalizada.  O bilhete no deixa dvidas.
	Esperem um momento, sim?  Lianne saiu correndo em direo  porta.
	Aonde voc vai?  Anabelle perguntou, mas no obteve resposta. Voltando-se para Celeste Costello, recomendou:
 Por favor, procure ser forte, senhora. Ns encontraremos uma sada.
	E mesmo?  Celeste fitou-a, esperanosa.  Quer dizer que est disposta a me ajudar?
	Lgico que sim. Farei qualquer coisa que estiver ao meu alcance, para solucionar este impasse. E no estou falando como profissional, sra. Costello, mas como ser humano. No que depender de mim, no pouparei esforos para ajud-la.
	Eu no esperava outra coisa de voc, querida  Celeste respondeu, emocionada, abraando Anabelle com fora. Depois, deixou-se cair novamente na poltrona, sacudida por uma nova crise de nervos.
Jessie, Evelyn e Anabelle empenharam-se em acalm-la. E ento a porta se abriu, dando passagem a Lianne e... Adam Garret!
	Bom dia  ele lanou um cumprimento geral.  Lianne me disse que vocs esto com um srio problema.
Anabelle olhou de Adam para a irm.
	Maninha, por que foi importun-lo? Adam deve estar cansado e, alm do mais, no poder nos ajudar, neste momento.
Ah, antes que eu me esquea, deixe-me apresent-lo  disse Evelyn.  Adam, esta  Celeste Costello, nossa amiga. Celeste, este  Adam Garret. Exasperada, Anabelle interveio.
	Acho que o momento dispensa esse tipo de formalidades, prima.
Mesmo assim, Adam e Celeste Costello cumprimentaram-se, de maneira educada.
	Bem, o que est acontecendo, afinal?
Em poucas palavras, Anabelle explicou a situao. E concluiu com um comentrio dirigido especialmente a Lianne, embora olhasse para Adam.
	Para ser franca, no sei porque minha irm resolveu cham-lo, a esta hora da manh.
	Seis cabeas pensam melhor do que cinco  Lianne sentenciou.
	Essa menina deveria ser advogada e no pianista  Anabelle rebateu, aborrecida.
	A unio faz a fora, meu bem.  Jessie tomou o partido de Lianne.  Talvez Adam nos ajude a encontrar uma sada.
Disposta a no mais prolongar o assunto, Anabelle decidiu concentrar-se no problema em si.
	Diga-me, sra. Costello...
	Sim?
	No tem ideia de para onde sua filha foi?
	Tenho, sim  Celeste respondeu, tomada por um sbito entusiasmo.
	 mesmo?  Anabelle reagiu, eufrica.
	Sim. Ela deve estar no Liberty Hotel.
	Ora, ento o que estamos esperando? Vamos ligar para esse hotel e nos informar sobre...
	No adianta  Celeste a interrompeu.  Algum ter de ir at l, para conversar com ela pessoalmente e convenc-la a voltar para casa. Se ligarmos, ela se recusar a atender.
	Tem razo  Evelyn concordou, pensativa.
Voltando-se para Adam, Anabelle perguntou:
	Ser que voc levaria a sra. Costello at esse hotel?
	Claro que sim  ele se disps.  Basta dizer-me aonde fica.
	Em Lincoln City  Celeste respondeu.
	 um bocado longe  Anabelle comentou.  Acha que poderia ir at l, Adam?
	Sim.
	Otima ideia  Jessie aprovou.  Mas, em minha humilde opinio, Celeste Costello no  a pessoa mais indicada para ir.
	Como no?  Anabelle retrucou.  Ela  a me da noiva!
	Por isso mesmoJessie replicou.H certos momentos em que as mes no podem ajudar muito. As vezes a presena de uma outra pessoa  mais eficiente, nesses casos.
	Como assim, Jessie?
	Voc ainda no entendeu, mana?  disse Lianne  Nossa prima est propondo que voc v at Lincoln City, com Adam.
	Eu?  Anabelle espantou-se.  Mas...
	Sim, minha querida.  Celeste parecia prestes a sofrer uma nova crise.  Faa isso por mim, por ns... E eu lhe serei eternamente grata.
A costa do Oregon era de uma beleza de tirar o flego, Anabelle pensava, acomodada no banco ao lado de Adam, que dirigia seu reluzente sedan cinza-metlico, rumo a Lincoln City.
A manh de primavera estava magnfica, ideal para um passeio. Anabelle, que no princpio da viagem sentira-se tensa, fora relaxando aos poucos. Afinal, quem conseguiria manter-se nervosa, diante do esplendor da paisagem?
Dirigindo com cuidado e habilidade pela estrada que serpenteava na encosta da montanha, Adam sentia-se tomado por uma alegria que no experimentava h muito tempo. Seria capaz de agradecer  velha sra. Costello, pela oportunidade de estar to perto de Anabelle e ao mesmo tempo to longe de Collier Bay, dos problemas familiares e profissionais.
A chegada a Lincoln City ocorreu no incio da tarde. A cidade, um ponto turstico importante da regio, preparava-se para receber os visitantes, que chegariam em massa para a temporada de vero. Mas, por enquanto, a bela Lincoln City continuava calma, com pouco movimento e cheia de flores por todos os lados.
Adam e Anabelle no tardaram a encontrar o Liberty Hotel, que era bastante famoso na regio.
O Liberty ficava num ponto retirado, de frente para uma praia pequena e encantadora, limitada por belas formaes rochosas. O mar, de um azul esplendoroso, contrastava com a alvura impressionante da areia.
Anabelle no resistiu  tentao de tirar as sandlias e experimentar a maciez do solo. Estava usando um vestido leve, estampado com motivos florais, de corte simples, mas que caa-lhe muito bem.
Adam tambm vestia trajes descontrados: cala branca de algodo, uma camisa amarela de gola plo e chinelos.
	Este lugar  ideal para quem deseja ficar sozinho  Anabelle comentou, contemplando a fachada do hotel, onde uma placa entalhada em madeira exibia a inscrio "bem-vindo", em vrios idiomas.
	E tambm ideal para casais apaixonados  disse Adam.  Natureza e tranquilidade so os melhores parceiros dos amantes.
	Bem, mas no estamos aqui para conjeturar sobre os possveis frequentadores do Liberty.  Anabelle tornou a calar as sandlias.  Vamos consultar a lista de hspedes e torcer para que o nome de Maria Costello se encontre entre eles.
Em poucos instantes, ambos entravam na portaria do hotel, uma construo em formato de ferradura, com vrios apartamentos separados por varandas, tendo ao centro uma piscina.
Uma recepcionista sorridente os recebeu.
	Boa tarde  cumprimentou-os, solcita.  Desejam hospedar-se?
	No  Anabelle respondeu, no mesmo tom.  Precisamos de sua ajuda para localizar uma amiga...
	Isso mesmo  Adam secundou.  Estamos procurando algum que se chama Maria Costello. A senhorita poderia checar a lista de hspedes?
	Certo, senhor...
	Adam Garret  ele se apresentou.  E esta  Anabelle Simmons.
	Adam Garret? a recepcionista repetiu, franzindo o cenho.
	Sim.
Fazendo um gesto de assentimento, a recepcionista voltou-se para Anabelle.
	E a senhorita ...
	Anabelle Simmons  Anabelle se apresentou.
	Adam Garret e Anabelle Simmons  a recepcionista repetiu, fitando-os com curiosidade.
	Isso mesmo  Adam confirmou, um tanto confuso.  Por que est nos olhando assim, moa?
	Para confirmar com a descrio.
	Como?  Anabelle espantou-se  De que descrio est falando?
Como resposta, a recepcionista levantou-se, abriu uma gaveta e pegou um molho de chaves.
	Venham comigo, por favor.
Anabelle e Adam entreolharam-se, atnitos.
	Por aqui... E ela conduziu-os at um dos apartamentos. Abrindo a porta, convidou:  Fiquem  vontade, sim?
	Maria est neste apartamento?  Anabelle indagou, cada vez mais intrigada.
	No, senhorita. Mas aquele fax explica tudo. Com licena.  E a recepcionista saiu, depois de entregar o molho de chaves a Adam.
	Mas o que est acontecendo, afinal?  Anabelle protestou, pegando o fax que estava sobre um console, no hall do apartamento.
	Leia em voz alta, por favor  Adam pediu, deixando o molho de chaves sobre uma cadeira, prxima ao console.
Anabelle empalideceu... Depois corou... E ento ficou sem flego.
	No faa tanto suspense  Adam pediu, ansioso.  Estou to tenso quanto voc, a respeito dessa histria.
Como resposta, Anabelle simplesmente entregou-lhe o fax, que dizia:
Queridos, perdoem-nos por termos mentido para vocs. Mas este foi o nico jeito que encontramos, para mand-los a um lugar paradisaco, prprio para o desabrochar do forte sentimento que os une... Um sentimento que aqui, no corre-corre da rotina diria, mal tem tempo de se manifestar.
A esta altura, j ser desnecessrio dizer que Maria Cos-tello est muito bem, e que a ideia de cancelar o casamento com Gustav jamais lhe passou pela cabea.
Reservamos este apartamento para vocs, por duas semanas. Mas fiquem o tempo que quiserem, pois cuidaremos de tudo por aqui, em sua ausncia.
Recebam nossos votos de muito amor e felicidade.
Ass.: Lianne, Evelyn, Jessie e... Celeste Costello, no papel principal. C entre ns, vocs no acham que ela possui um incrvel talento para o teatro? Ns achamos. Tanto, que sugerimos que ela entrasse para o grupo de teatro da terceira idade, aqui de Collier Bay.
Espanto, confuso, perplexidade... todas essas emoes assaltaram Adam, no final da leitura. Mas o riso foi mais forte. E ele desatou numa sonora gargalhada, jogando a cabea para trs.
	Elas so incrveis!  exclamou, ao fim de alguns instantes.  Enganaram-nos direitinho!
	E ns camos como dois idiotas  Anabelle resmungou.  Ah, quando eu voltar para casa, direi umas boas verdades quelas trs... ou melhor: s quatro, pois Celeste  igualmente culpada. Vamos, Adam, quanto mais cedo retornarmos, melhor.
Mas Adam no se moveu.
	Vamos?  Anabelle insistiu.
Ele apenas continuou a fit-la, com uma expresso que Anabelle no conseguiu definir.
	O que foi?  perguntou, confusa.  Em que est pensando, Adam?
	Em aceitar o presente que o destino nos deu, atravs daquelas trs malucas.
A resposta de Adam no se traduziu em palavras, mas sim num beijo cheio de paixo.
Tomada de surpresa, Anabelle quis resistir. A sensatez a alertava de que aquilo no fazia muito sentido... Mas, por outro lado, as emoes que a assaltavam pareciam ignorar ostensivamente a voz da razo.
	Somos dois teimosos  disse Adam, afastando por um instante os lbios dos seus.  Precisamos ser literalmente pressionados, para fazermos o que temos desejado com tanto ardor, nos ltimos dias... Ou ser eu deveria dizer... nos ltimos meses.
	Anos... sculos?
	Ah, Anabelle, se soubesse o quanto te amo!  Ele abraou-a com fora.  E agora, que a tenho assim, to perto, no mais a deixarei escapar.
	No entendo voc  ela disse, baixinho.  H cinco anos, eu deixei bem claro que o amava.
	Mas eu no podia corresponder ao seu amor. Precisava correr mundo, envolver-me em aventuras...
	E agora?  ela perguntou, docemente.
	Agora, vou ancorar meu barco e ficar no porto, para sempre, a seu lado.
	No  disse Anabelle, com firmeza, fitando-o no fundo dos olhos cor de jade.  No quero que se sacrifique por mim, Adam.
	Eu tambm no queria sacrific-la  ele confessou  Por isso recusei o amor que voc me ofereceu, no passado. Disse a mim mesmo, com muita fora, que voc era minha melhor amiga. E tentei v-la assim, apenas assim... S que nos ltimos dias o amor, estancado na represa de meu corao por tanto tempo, arrombou as comportas e fluiu com um poder que eu j no podia contestar.
	E ento voc se disps a abrir mo de si mesmo, por mim  ela concluiu.
	Por amor a voc, Anabelle Simmons  ele declarou, fitando-a com paixo.  E no estou arrependido.
Voc nem imagina o quanto essas palavras me como vem... Mas no posso aceitar o presente que est me dando, Adam Garret.
	No?  ele indagou, confuso.  Mas por qu? Voc no me ama, Anabelle?
	Sim, com toda a fora de meu corao. E  por isso que no quero v-lo frustrado, a meu lado. Amar  aceitar o outro, e no tentar modific-lo, para que ele se encaixe numa imagem pr-fabricada. Quero que voc parta para o seu amado mar sempre que tiver vontade, ou mesmo se engajar em alguma expedio.
	Mas e voc, como ficar durante esse tempo?
	Esperando ansiosamente por seu regresso. E quando voc estiver em terra, com o "barco ancorado", como disse ainda h pouco...
	No sentirei saudades do mar, porque terei meu prprio porto... que  voc, Anabelle Simmons.
	O amor  isso, Adam. Ambos cedem e exigem, numa medida justa, com a constncia e simplicidade das mars que vm e vo.
Um novo beijo, mais prolongado, selou aquele acordo de amor. Erguendo Anabelle nos braos, Adam levou-a para o quarto e colocou-a gentilmente na cama.
	Agora sim, estou verdadeiramente livre  disse, comovido, ajudando-a a livrar-se das roupas.  Livre para amar voc...
	Para ser feliz  ela completou, abrindo-se para receber o homem que tanto amava. O sonho, acalentado h tanto tempo, enfim tornava-se realidade.
A vida era mesmo uma caixinha de surpresas. Foi isso que Anabelle pensou, um segundo antes da posse, que arrebatou-a de si mesma, envolvendo-a num misto de fogo e prazer que quase a fez gritar.
Depois, o mundo ganhou uma nova dimenso. As portas do paraso se abriram, para receber Anabelle que enfim tornava-se... mulher!

FIM
